segunda-feira, 24 de março de 2008

Todos os dias, ele cobre o passado com o lençol branco preferido.

Como se assim, ela não fosse perceber um elefante no meio da sala. Pelo esforço dele, ela disfarça. Arruma os móveis e a vida, como se não houvesse um animal enorme e feroz à sua espreita. Imagina o que ele imagina. Imagina se ele, realmente, acredita que omitir faz inexistir. Feito mágica. Entende como cuidado, como carinho. Por isso, finge que não vê. Enquanto ele, finge que não sabe que ela finge que não vê...

O problema é que o passado é bicho teimoso. Certas noites, faz um barulho tão medonho, que não deixa ninguém dormir. E o lençol branco preferido não consegue esconder as palavras que grita, mesmo em silêncio.

terça-feira, 18 de março de 2008

Aprendizados.

Ele vai, mas fica na lista rabiscada de coisas pra casa nova, no número de telefone que esqueci de copiar no celular, nas Havainas preta e branca, no copo azul, na pasta vermelha, nos chás guardados no armário, na coca-cola na geladeira, no cheiro do sabonete, na toalha atrás da porta, no lençol preferido que agora é meu, que agora é nosso. Porque ele diz que preciso me conjugar no plural e eu escolho o verbo com-par-ti-lhar.

Ele vai, mas fica cada vez mais em mim.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Aí, você fala isso e aquilo.

Eu ouço, sem dizer palavra. O que me vem à mente, o que fica ali, na ponta da língua, ia lhe parecer agressão. E eu passo. O problema é que fica latente, não adormece. Tarde da noite, olho pra você e a minha vontade é de falar que a minha opinião é. Mas, sinto tanta ternura, tanta doçura e penso que não é justo pintar um quadro feio, da paisagem que lhe parece tão bonita. Pego o pensamento pela mão e levo pra longe desse campo minado. Contigo, quero passear mais leve.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Inspira, expira.

É estranho andar pelo mesmo jardim de mãos dadas com um novo senhor do castelo. O tempo é outro, mas o espaço quase não mudou. De olhos fechados, sei o que encontro se esticar o braço ou der dois passos pra esquerda. Aí, o Antes invade o Agora sem cerimônia. Sente-se em casa, senta e fica. O peito se enche de lembranças e mal consigo respirar.

A verdade é que quero-muito-preciso aprender que é igual, mas diferente.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Cotidianices.

Tenho uma cama branca, que combina com o guarda-roupa branco. Tenho um colchão honesto, que receberá lençóis coloridos e felizes. Meu quarto já é um quarto. Não sei se vou me acostumar com as luazinhas e estrelas que acendem no teto. Quero uma luminária bonita pra poder ficar lendo até mais tarde. Porque agora leio até mais tarde. Continua sendo difícil dormir, sabe? Até me re-acostumei a assistir televisão. Meu chefe fica contente porque vejo todos os comerciais da concorrência e posso dar a minha opinião nas reuniões de pauta. Ainda prefiro filmes. Ganhei Dois dias em Paris e Persepolis. Só comecei a ver e já tô gostando. Também ganhei a trilha de Juno, mas o CD da vez é o Clube da Esquina, que dá um calorzinho no coração e faz pensar verde.

=)

Os dias tem um ritmo diferente quando não são só meus.
Acho que danço mais bonito quando tenho par.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Se fosse só respirar, nera?

Mas, não é. Há 13 anos, viver tem sido uma luta de todosantodia, amém. Eu canso, mas sigo. E é uma batalha de Mim para Comigomesma. Por mais amor que o Outro me tenha. Ajuda segurar a minha mão, ajuda dizer que vai ficar tudo bem, ajuda fazer cafuné, ajuda velar meu sono, ajuda estar perto. De verdade. E ando precisada, embora não consiga dizer em alto e bom som. As palavras me fogem. Aí, desenho.

terça-feira, 4 de março de 2008

"Ele ligou. O que é que eu faço?"

E a única resposta em que consigo pensar é LIGA DE VOLTA. Isso, se a vontade for maior que o orgulho, for maior que o receio. Se não for, já perdeu a graça. Mas, enquanto o nome dele nas ligações perdidas do celular, fizer o coração acelerar e as pernas tremerem, liga. Liga de volta. Arrisca e petisca.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Eu não quero mais esperar pelo dia 05.

Eu não quero mais esperar por dia nenhum. Eu não quero mais esperar. Achei que essa fase já tinha sido superada. Que seriam muitos dias sim, poucos dias não. Mas, a vida atrolepa os planos e muda a rotina de lugar. Eu entendo. Eu aceito. Mais por não poder fazer nada, que por ser uma pessoa compreensiva. Hoje, eu não sou uma pessoa compreensiva. Amanhã, quem sabe. O cansaço me consome. E eu queria poder parar de sentir, por um dia ou dois.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Do que assusta.

Quando falo desse meu cansaço, você diz que tá tudo bem e que essa agonia já, já passa. Mas, eu sei - e você sabe - que não tá tudo, exatamente, “bem” faz é tempo. E passar, passa, mas sempre volta. Porque é peso pr´uma vida inteira. A maior parte do tempo, caminho leve e me distraio com as cotidianices. Mas, vezenquando, pesa tanto que chega a doer. Tudo pára, o peito aperta e o pensamento gira e gira ao redor de um único eixo. Depois, a vida segue e eu sigo junto. Mas, por enquanto, não consigo sair do lugar e você não tá aqui pra abrir a porta.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Mes-se-ja-na.

O que eu queria mesmo, era que perto lá de casa, tivesse um café da manhã feito da Padaria Nogueira, lá na Messejana. Acordei com esse desejo. Tá, tem a Diplomata ali do lado. Mas, é tão loja de conveniência, apesar das delícias. E lá no Nogueira é tudo tão madeira com toalhas quadriculadas com florzinhas coloridas com moças sorridentes com pão quentinho. Ai, ai. E adorei falar Messejana. Mes-se-ja-na. Acho que queria morar lá. E pegar filmes na locadora do posto. É. Crio vínculos muito rapidamente. Ah, e lá na lagoa tem uma Iracema gigante, gi-gan-te. Pra mim, tem cara de Iara, que também era índia e bonita que só, mas morava lá no Rio Solimões, nera?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Filosofia de Seu Lima:

O Deus do gato é mais poderoso que o Deus da gente.

Oremos, então.

Nem contei ainda.

Na casa nova, tomo banho vendo a cidade toda laaaá do alto. Aliás, vejo a cidade toda laaaá do alto da sala, da cozinha e do quarto também. Aos poucos, o apartamento vai ganhando um ar de morada. Aos poucos, eu me vejo pertencedora daquele lugar. E feliz. E fazendo planos. Quero pintar a parede da sala de uma cor-colorida. Ainda não sei qual. Pensei em amarelo, mas é muito claro. Vermelho, mas é muito escuro. Talvez, laranja. Ou verde. Não sei ainda. Vi um sofá colorido também, assim com todas as cores juntasdumavez e fiquei apaixonada. Mas, custa muitos dinheiros e me abstenho. Vou levar margaridas pra lá e elas vão sobreviver. Os livros ainda estão em caixas, esperando as estantes. Mas, é bom saber que estão comigo de novo. Nem todos ainda, mas é um começo. Tudo é um começo, na verdade e eu adoro essa parte da história, que sempre fui mais de chegadas que de partidas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Eu me divirto com as tuas crises.

São muito mais movimentadas que as minhas. Eu sofro pra dentro. Tu sofre pro mundo. Eu preciso dormir. Tu, acordar.

Não durmo há quatro dias.

Só falta tentar suco de maçã, sem casca, pra ver se adianta. Fico ali, deitada na cama, olhando pro teto, tentando relaxar pra ver se o sono engrena, mas não tem jeito. Nos primeiros dias foi um pensamento que levava a outro, que levava a outro pensamento e abri tantas gavetas, que meudeusdocéu. Mas, acho que aprendi a fazer isso sem bagunçar tudo ao redor. Uma hora, a gente consegue, né? Sei bem o que me diz respeito, qual é a minha parte, o que preciso mudar e o que falta consertar. Continuo sem saber como dar esse próximo passo, esses próximos passos, na verdade, mas chego lá. Mesmo que demore, mesmo que. Dos outros, tento esperar e cobrar cada vez menos. Que enfeitem o meu dia a seu modo e a seu tempo. Engraçado é que acabaram confundindo esse desprendimento com desamor. Vá entender. As pessoas, todas elas, eu, inclusive, são cheias de arestas. Mas, voltando às minhas noites insones, passada essa etapa de varredura de pensamentos e sentimentos, fiz milhares de listas de isso-sim, isso-não, isso-talvez. Pros amanhãs. Porque quando a gente menos espera, já é 15 de fevereiro de 9 anos depois. Isso assusta. Aliás, ando assustada novamente. Menos que antes. Menos que naquelas férias de 2007. Mas, ainda assim. Talvez, seja por isso que não durma, afinal. Coisa esquisita. Como foi esquisito quando as portas do quarto bateram sozinhas ao mesmo tempo. Como foi ainda mais esquisito não sentir medo dessa vez e quase achar graça. Ando mais leve, sabe? Mesmo sem dormir. Não levo pedras comigo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Além do que se vê.

O cabelo curto tentava honestamente continuar preso no rabo-de-cavalo. O elástico laranja combinava com a blusa da mesma cor. O brinco feito de conchas do mar, balançava a cada sopro de vento, fazendo cócegas no pescoço. Notou a mangueira carregada de frutas do outro lado da rua e desejou o gosto doce na boca. Mordeu os lábios. Roeu a unha. Descascou um pouco mais do esmalte vermelho. Encostou a cabeça na janela e se distraiu com o movimento dos carros até quase adormecer. Abriu os olhos quando o sinal fechou. E foi aí que avistou o menino de camisa preta e mochila amarela. Parado na faixa de pedestres. Indeciso entre o ir-e-vir. Sorriu pequenininho. Quis descer do ônibus e segurar a mão dele. Mas, encostou novamente a cabeça na janela, tirou o mp3 da bolsa florida, colocou os fones no ouvido e escapou daquele momento na música preferida.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ai, ai.

Toda novidade traz esse rebuliço, esse fora-do-lugar. E a gente fica tentando arrumar tudo, estabelecer a lei e a ordem. Mas, o que é novo escapa. Não encontra morada. Porque ainda não há.

Eu acredito.

O que ele não entende é que as palavras proferidas com fé tem poder de oração. Ecoam aqui dentro. Por horas seguidas. Ameaçando o que só agora volta a florescer e é ainda tão frágil.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Aprendizagem.

O céu sem nuvens. O sol que deixa o branco dos muros ainda mais branco. Os carros com pressa de sexta-feira. O sinal verde, vermelho. Ele do lado de lá. Ele do lado dela. E a raiva de antes que derrete no calor do abraço de agora.

Tudo é uma questão de tempo-espaço. Tu-do.

De longe, observo.

Ela começa a tecer uma nova história. Dessas de amor, que são as preferidas. Os fios invisíveis, cruzam os quilômetros de distância. Tocam a pele, afagam, alentam. E do outro lado, a criança se deixa envolver. Porque é quente e macio. E o mundo, o mundo é tão hostil. Percebendo a entrega, ela se deleita. Trabalha dia e noite. Atravessa as horas, os dias, os meses. Incansável. Sonha acordada e faz planos mirabolantes. Inventa novas cores pra enfeitar o desenho, que é sempre dos mais bonitos. Espalha palavras doces pelo caminho e espera que as letras sejam devoradas. E são. Sempre são. Os corações têm fome de afeto.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Do que nunca muda.

Ela canta pra você e eu silencio.
Sei que não tenho esse direito, mas o coração não tem lei.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Eu te escrevi uma carta ontem à noite.

Em pensamento. Nela, te confessei os meus erros. E te confessei também o meu amor. Ou coisa que o valha. Porque é difícil se nomear o que não se entende. E eu não entendo o que sinto por você. Mas, a verdade é que não consigo escrever o teu nome na lista do não-querer.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

De todos as cores, azul.

De todas as flores, gérbera. Reza toda noite antes de dormir. E nunca esquece de agradecer pelas bonitezas do dia. Agradece também pelo que é feio, mas engrandece. Acredita que o sofrimento enobrece, mas nem sempre, porque prefere o caminho mais fácil. Põe o pé direito pra fora da cama primeiro. Herdou algumas supertições. Além do riso fácil e do olhar ágil. Está sempre apressada e atrasada. Fala mais com as mãos, que com a boca. Pensa mais rápido que fala e quase não fala o que pensa. Aprendeu a ser comedida. Tropeçou muitas vezes no caminho. Já se apaixonou pra sempre. Já morreu de amor. Não acredita mais em príncipe encantado, mas torce pra que lhe provem o contrário todo-santo-dia.

Sinais.

"Lá vem o Carnaval no seu cavalo doido, minha gente!"

E apesar dos gritos alarmados do velhinho, o pessoal da Prefeitura continuou decorando as ruas da cidade com as cores de Momo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Janeirices.

Era como se ele falasse a língua do mar e o coração dela batesse em ondas.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Da menina.

Ela veio andando em sua direção. Havaianas verdes, vestido preto, cabelo combinando. Era toda dança. Se pudesse adivinhar, diria que era samba. Mas, não a conhecia mais. Não a re-conhecia mais. No meio do caminho, ela deu meia-volta. Como se perdesse a coragem ou a vontade. E ele sentiu o coração apertar pela possibilidade dela ir, sem nem chegar. Levantou de um salto, no exato momento em que ela olhou pra trás e começou a rir daquele jeito esquisito como se sentisse cócegas em todo corpo. Algumas coisas não mudam, pensaram. Os dois. Ao mesmo tempo. E, de novo, no mesmo lugar.

E continua
(só não sei quando)