sexta-feira, 10 de abril de 2009
Da fé.
Gritei: “vem ver, vem ver, tem um monte de gente levando uma pessoa morta”. Achei que era um cadáver, deitado numa espécie de maca. Ao seu redor, várias pessoas, padres e coroinhas. Era a procissão do Senhor Morto, que vi pela primeira vez da janela da sala, quando morava perto da Igreja da Soledade. Ele me abraçou, enquanto eu ria e chorava ao mesmo tempo. Pela surpresa e pelo luto, que era nítido, mesmo de longe, mesmo do alto. Hoje, vi de novo pela televisão e quis estar lá. Gosto de cerimônias. Gosto desse sentimento comum que une e envolve as pessoas. É uma espécie de magia. Só pode.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Nunca durmo direito quando o Sport joga na Ilha.
Nunca. Nem ontem, 2 x 0 pro Palmeiras. Os rubro-negros passam buzinando pela minha janela tarde da noite, muito tarde da noite. E quem torce contra – ô torcida cheia de desafetos – buzina também. Aliás, nos gols do Palmeiras era toda uma gritaria, tinha fogos até. Crianças vizinhas tinham passamentos. Histeria coletiva. Quando cochilava, peeeeeéin, buzina. Até nem sei que horas. Num dado momento, o sono driblou a barulheira e foi a salvação. Difícil foi acordar hoje de manhã e vir trabalhar com a cidade dormindo ou viajando ou aproveitando o feriadão que já começou. Pra mim não, hein? Tem nem hora para.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
De antigamente.
Meu pai escondia os ovos-gigantes-de-chocolate pela casa e a gente tinha que encontrar. Meu irmão sempre descobria onde estavam. Os dois, o meu e o dele. E dizia: “quem achou, ganhou”. Aí, eram gritos e lágrimas e pedidos implorativos pelo partido paterno. E nem precisava. Era só parte da brincadeira, que se repetia toda semana santa, todo santo ano. Depois, era a disputa pra ver quem demorava mais tempo pra acabar com os ovos. Quem vencia, se deliciava na frente do outro que, por sua vez, fingia não se importar. Morrendo de inveja e vontade. Vezenquando, acontecia do ganhador não agüentar e dividir o que sobrou com o irmão em questão, eu ou ele. Ninguém tinha dor de barriga, nem dor de cabeça, nem enjôo, nem essas chatices adultas de quando se exagera no chocolate. Talvez, porque não fosse exagero. Talvez, porque a gente nem soubesse o que danado era isso.
Tenho certeza que ela me entenderia.
E, ao mesmo tempo em que sinto alívio, sinto raiva. Pela impossibilidade. Por não poder ir lá e contar dos meus dias, dos meus medos, das minhas angústias, das minhas alegrias e das minhas vontades. Penso que escrevo aqui, como uma tentativa de. Mas, acho que não alcança. Porque ela mora muito longe, muito alto. Tem os olhos cheios de paisagens e preguiça das minhas escadas.
Tem dias em que tudo parece muito difícil-impossível.
Feito hoje. Aí, sinto inveja e raiva e tristeza e um cansaço sem fim. Por querer a mesmíssima coisa há tanto tempo e continuar não conseguindo. Até quando, hein? Será que isso vai mudar de uma hora pra outra? Será que eu vou mudar de uma hora pra outra? Nem desistir, eu posso. Quisera. De verdade. Mas, essa vontade de vida me impede.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Do que fica.
Lembro das manhãs no Centro de Artes. Das janelas enormes da biblioteca. Um mundo lá fora, outro lá dentro. Era bom estar. Não sabia direito o que vinha depois. As possibilidades todas ali. E a medida da esperança era a mesma da angústia. Ainda bem que passou. Nos últimos meses, era uma agonia voltar lá. Agonia dessas grandes. Mas, a sensação parece que não passa. Volta, quando me distraio. Depois do almoço, quando deito a cabeça na bancada do computador, não é diferente de quando fazia o mesmo, naquelas mesas de fórmica branca.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Aff.
É tanta correria que, às vezes, penso que não vou conseguir. O corpo sente, a cabeça dói, o coração aperta e tenho vontade de sair correndo. Mas penso: falta pouco. E penso nisso faz é tempo. Agora, é verdade. O desejo do dia inteiro é deitar na minha cama e ficar lá. Sem nenhum movimento mais. Mas chego em casa e muda tudo. Como muda também a minha vontade de silêncio, quando ele começa a me falar de coisas sérias, daquele jeito que me faz rir. Sim, o mundo tá doido. Sim, as pessoas procuram sentido onde não existe. Sim, a vida é complicada. Mas, tudo bem. Tá tudo bem. Nada é tão importante assim. É o que ele me diz, enquanto vamos da Boa Vista até Boa Viagem. E eu acredito, tenho fé até.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Cotidianices.
O sofá novo é lindo. Grande, cinza, aquadradado. Pra três pessoas de verdade. Três pessoas grandes até. Dá pra deitar sem ficar apertada e ainda tem uma partezinha na frente, que a gente puxa se quiser colocar os pés pra cima. Olho pra ele e sorrio, com amor e orgulho. Sim, me apego às coisas. O meu ter se confunde com o ser.
Os dias têm sido muito quentes. Aí, tem esse céu azul que eu gosto demais. Aliás, entre todas as partes do dia, as manhãs. Ainda mais quando amanhece bonito feito hoje. A gente se enche de esperança e fé. Deve ser o sol, ah, deve.
Muitos livros, poucos filmes. Esses dias, vi o Menino de Pijama Listrado. E o protagonista me lembrou uma das pessoas que mais amo nesse mundo. Resultado, o triste do final, ficou ainda mais triste. Saudade, minha gente, é coisa doída.
Trabalheira sem fim, mas ando entusiasmada com isso e nada parece difícil demais. A gente segue, mesmo atropelando aqui e ali, feliz & contente. Falando nisso, ontem foi lindo ver o meu irmão cheio de sorrisos. Por mim, o tempo podia morar ali. Tudo se ilumina, vocês nem sabem.
Os dias têm sido muito quentes. Aí, tem esse céu azul que eu gosto demais. Aliás, entre todas as partes do dia, as manhãs. Ainda mais quando amanhece bonito feito hoje. A gente se enche de esperança e fé. Deve ser o sol, ah, deve.
Muitos livros, poucos filmes. Esses dias, vi o Menino de Pijama Listrado. E o protagonista me lembrou uma das pessoas que mais amo nesse mundo. Resultado, o triste do final, ficou ainda mais triste. Saudade, minha gente, é coisa doída.
Trabalheira sem fim, mas ando entusiasmada com isso e nada parece difícil demais. A gente segue, mesmo atropelando aqui e ali, feliz & contente. Falando nisso, ontem foi lindo ver o meu irmão cheio de sorrisos. Por mim, o tempo podia morar ali. Tudo se ilumina, vocês nem sabem.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
Eu não sei o que ela quer.
Mas, ela diz que sabe e penso que essa é uma vantagem medonha. Porque se me perguntassem, enumeraria montes de coisas, que acho que sim, que acho que quero. Mas não com tanta força, nem com tanta vontade. Aí, tudo continua igual. Por outro lado, a sensação que tenho é de matar um leão a cada dia. Vezenquando, dois. Porque não é fácil, nada é fácil.
sexta-feira, 20 de março de 2009
É tão bom quando faz sol.
Ainda mais quando é sexta-feira.
Gosto quando chove também, mas hoje precisava era de céu azul.
Tudo amanhece.
Até a menina que sente o coração se encher dessa ternura, que a distância não deixa virar abraço e beijo.
Vezenquando, é bom que não vire abraço e beijo e viva ali no Reino do Encantamento, para todo & sempre, amém.
Vezenquando, só.
Porque a vida precisa de pele e cheiro e calor e o tiquetaquear do coração do Outro junto do coração da gente.
Gosto quando chove também, mas hoje precisava era de céu azul.
Tudo amanhece.
Até a menina que sente o coração se encher dessa ternura, que a distância não deixa virar abraço e beijo.
Vezenquando, é bom que não vire abraço e beijo e viva ali no Reino do Encantamento, para todo & sempre, amém.
Vezenquando, só.
Porque a vida precisa de pele e cheiro e calor e o tiquetaquear do coração do Outro junto do coração da gente.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Das saudades.
A fumaça de cigarro entra pela janela logo de manhã, enquanto tomo café com pão torrado. O pensamento adianta, eu atraso. Demoro demais no chuveiro e a água quente deixa o espelho embaçado. Escovo os dentes sem me ver direito. Nunca é a hora de acordar quando o despertador toca. Sinto falta de ouvir o teu riso solto pela casa, mesmo achando que não combina em nada com o meu mau-humor das setimeia.
terça-feira, 10 de março de 2009
Criancices.
Só comprava picolé de limão. Mesmo preferindo o de uva. Achava que era muitomuito esperta por conseguir ver no branco-transparente-fosco, se o palito era premiado, antes de terminar de comer. Vantagem nenhuma. Porque já tinha comprado e aberto a embalagem de qualquer jeito. Mas, me sentia sabida, mesmo trocando o doce da uva pelo azedo do limão.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
O que será que me dá.
Ele fechou os olhos e disse que não lembrava mais como era aquela sensação de silêncio absoluto quando, tarde da noite, os carros param de passar por trinta, quarenta segundos. Olhos arregalados e o indicador apontando o oco, o buraco no meio da barulheira de sempre. E eu nem percebi, acostumada com o movimento acelerado. Lá ou aqui é a minha rotina sempre & em todo lugar.
Minha casa tem um cheiro muito próprio. Pablo diz que é cheiro de taco, eu não sei, nunca morei numa casa com piso de taco antes.
No apartamento da Boa Vista, o vento trazia o cheiro de cana queimada vezenquando. Era estranho, porque no meio da cidade não tem plantação. Vai ver, são engenhos fantasmas, que fazem suas queimadas à noite, enquanto o mundo dos vivos, dorme.
Sempre que vou ao oculista, fico com um quase-medo. Quando descobri que era diabética, me disseram que podia acontecer isso e aquilo. Desde então, a cada seis meses vou lá e entro no consultório de Dr. Guillherme com o coração tiquetaqueando descompassado.
Ontem, falava descontroladamente pro pensamento não pensar. Como sempre, fiquei insegura na hora de dizer se enxergava melhor com este ou este, este ou o anterior, o primeiro ou o segundo. Vejo as letrinhas lá na frente quase do mesmo jeito e peço pra ele repetir e repetir e repetir e ele me tem muita paciência.
Depois, tem o exame da luz azul, que diz se a presão do olho tá boa, tá. E aquele outro da luz branca, que diz se o fundo do olho tá bem, tá. Pronto. Liberada até agosto.
Na volta, parada estratégica e emergencial na Fundaj. Queria ter visto O Lutador, mas chegamos atrasados. Ele disse que eu não ia conseguir ler a legenda de qualquer forma, mas eu podia apostar que sim.
Minha casa tem um cheiro muito próprio. Pablo diz que é cheiro de taco, eu não sei, nunca morei numa casa com piso de taco antes.
No apartamento da Boa Vista, o vento trazia o cheiro de cana queimada vezenquando. Era estranho, porque no meio da cidade não tem plantação. Vai ver, são engenhos fantasmas, que fazem suas queimadas à noite, enquanto o mundo dos vivos, dorme.
Sempre que vou ao oculista, fico com um quase-medo. Quando descobri que era diabética, me disseram que podia acontecer isso e aquilo. Desde então, a cada seis meses vou lá e entro no consultório de Dr. Guillherme com o coração tiquetaqueando descompassado.
Ontem, falava descontroladamente pro pensamento não pensar. Como sempre, fiquei insegura na hora de dizer se enxergava melhor com este ou este, este ou o anterior, o primeiro ou o segundo. Vejo as letrinhas lá na frente quase do mesmo jeito e peço pra ele repetir e repetir e repetir e ele me tem muita paciência.
Depois, tem o exame da luz azul, que diz se a presão do olho tá boa, tá. E aquele outro da luz branca, que diz se o fundo do olho tá bem, tá. Pronto. Liberada até agosto.
Na volta, parada estratégica e emergencial na Fundaj. Queria ter visto O Lutador, mas chegamos atrasados. Ele disse que eu não ia conseguir ler a legenda de qualquer forma, mas eu podia apostar que sim.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Diarices.
Essa semana, os dias têm cara de sexta-feira.
É o Carnaval que abre alas.
Quem é de folia, pensa na festa. Quem não é, no descanso.
Há três noites, durmo lá pelas duas.
Como se o amanhã fosse sempre sábado, que ainda demora.
Domingo, porque o coração levou um baque e doeu que só.
Segunda, porque o sono me escapuliu.
Ontem, porque a noite foi de chegadas.
O meu transatlântico veio de avião.
E a camisa cor de rosa é a mais bonita.
Dessa vez, não foi tão estranho voltar.
Até pensei que seria.
Porque essas mudanças me cansam demais.
Quando me acostumo em estar num lugar, tenho que ir para o outro e quando me acostumo com o outro, tenho que voltar pra onde estava antes.
A minha bolsa já não comporta as minhas coisas.
Que dirá, meu coração.
É o Carnaval que abre alas.
Quem é de folia, pensa na festa. Quem não é, no descanso.
Há três noites, durmo lá pelas duas.
Como se o amanhã fosse sempre sábado, que ainda demora.
Domingo, porque o coração levou um baque e doeu que só.
Segunda, porque o sono me escapuliu.
Ontem, porque a noite foi de chegadas.
O meu transatlântico veio de avião.
E a camisa cor de rosa é a mais bonita.
Dessa vez, não foi tão estranho voltar.
Até pensei que seria.
Porque essas mudanças me cansam demais.
Quando me acostumo em estar num lugar, tenho que ir para o outro e quando me acostumo com o outro, tenho que voltar pra onde estava antes.
A minha bolsa já não comporta as minhas coisas.
Que dirá, meu coração.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Do que eu não quero mais.
Tem noites em que a gente dói. Uma dor assim tão grande que chorar não adianta e mesmo assim você chora, porque não tem outro jeito. O remédio pra dor de cabeça não funciona, o travesseiro não acalma, o livro preferido não distrai. Você fica ali olhando os carros pela janela e rezando pra aquietar o coração que não obedece. Tentando entender porquê e achando que não é justo, que não é certo e que tudo que você sente parece não ter a menor importância, quando do lado de lá, a música é alta demais.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Durante vinte anos foi o caminho de casa.
Da minha casa. Não é mais há oito anos. E ainda bem que não é. Fazer esse percurso hoje, foi estranho. Ver que tudo continua igual, apesar das diferenças, também. As casas mais bonitas, agora têm grades e muros altos. Não se vê mais o terraço de Vera, nem se adivinha a piscina de Daniel.
Andar a pé, ficou ainda mais esquisito. Ninguém na rua. Portas e janelas fechadas. O asfalto só vai até a metade da Ulisses Montarroyos. Na outra metade, poeira, que faz o calor parecer ainda mais quente. Os prédios vizinhos continuam lá. Os antigos vizinhos, não.
Interfonei, abriram a porta e senti como se tivesse estado ali ontem. Eu fazia parte, eu era, eu estava. Eu, Pablo, mainha e vó Lu. Painho e Fredy, também. Mas, não por tanto tempo, não em tantas lembranças. Porque foi uma vida inteira. Dos cinco aos vintiseis.
O olhar sabe onde encontrar cada coisa. O coração sabe o que sentir em cada canto. A cabeça não sabe mais de nada. Confusa, misturando os tempos de antes e de agora. O sofá da minha mãe está na recepção.
Quis ir embora assim que cheguei. Mas, fiquei.
Andar a pé, ficou ainda mais esquisito. Ninguém na rua. Portas e janelas fechadas. O asfalto só vai até a metade da Ulisses Montarroyos. Na outra metade, poeira, que faz o calor parecer ainda mais quente. Os prédios vizinhos continuam lá. Os antigos vizinhos, não.
Interfonei, abriram a porta e senti como se tivesse estado ali ontem. Eu fazia parte, eu era, eu estava. Eu, Pablo, mainha e vó Lu. Painho e Fredy, também. Mas, não por tanto tempo, não em tantas lembranças. Porque foi uma vida inteira. Dos cinco aos vintiseis.
O olhar sabe onde encontrar cada coisa. O coração sabe o que sentir em cada canto. A cabeça não sabe mais de nada. Confusa, misturando os tempos de antes e de agora. O sofá da minha mãe está na recepção.
Quis ir embora assim que cheguei. Mas, fiquei.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Amanhecendo.
Da minha janela, vi o dia amanhecer cor de rosa. Depois, o céu se acinzentou ameaçando chuva. Trouxe a sombrinha vermelha e, por causa dela, a moça de blusa verde veio conversando comigo no caminho. As tristezas dela, que nem são, parecem com as minhas, que talvez também não sejam. E a gente riu do que dito, porque mesmo no que dói, há graça.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Ando cansada de despedidas.
Acho que quando acontece uma dessas grandes, dessas pra sempre, a gente não quer que ninguém mais vá embora, nunca mais. Sei que por esses dias, mais um avião vai cruzar os céus do Brasil, de Recife pra Brasília. Sei que devia ser um motivo pra ficar contente e é. Mas, penso na falta e isso me dói demais. Não tenho muitas gentes no mundo. Não dessas que eu queira estar perto e compartilhar a vida. Conto nos dedos e queria todas ao alcance das mãos.
Idas e vindas.
Das coisas que mais gosto nessa vida, é virar aquela esquina que dá na Conselheiro Aguiar e sentir o vento no rosto. Quando tem cheiro de mar é ainda melhor. Quase consigo esquecer o cansaço e a chateação do dia. Quase. É que quando chego, ainda estranho, ainda me sinto fora do lugar. E acho que também vou estranhar e me sentir fora do lugar, quando voltar pr’aquela outra casa, que é minha, na terça-feira. Vou e volto e vou de novo depois. Ele se adapta como se nunca tivesse saído do lugar. Ou pelo menos é assim que me parece. Mas, a verdade é que a gente nunca sabe o que vai no coração do Outro. Por mais perto que se esteja. E eu ando distante. Dele. De mim. Do mundo. O engraçado é que quem olha assim, nem imagina.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Seis de fevereiro de dois mil e nove.
O dia tinha sido chato, com as cobranças mais descabidas. Ele ligou dizendo que vinha me buscar na agência. Depois, mandou sms dizendo que tinha uma coisa importante pra me contar e eu fiquei com o coração apertado, porque sempre fico com o coração apertado quando as pessoas têm uma coisa importante pra me contar. Fui correndo encontrá-lo. Vi quando passou por mim sem me ver. Fiz o caminho de volta, maldizendo os passos rápidos de um metro e oitenta e três. Cheguei esbaforida e pedi que me falasse de uma vez. Aí, soube que ele ia fazer um teste lá longe e que se desse tudo certo ia ser a coisa mais maravilhosa. E foi impossível não ficar feliz ao saber do desejo realizado, mesmo sabendo que vou sofrer com a distância, que sempre sofro (quando quase não agüento, penso que podia ser pior, que podia ser ainda mais longe e sinto alívio por três minutos). E como era a melhor notícia e era sexta-feira, fomos comer crepes deliciosos, enquanto fazíamos planos e elaboramos estratégias. Tudo pra dar tudo certo. Depois, fomos pra casa onde recebi a massagem prometida há mais dia uma semana. Ele disse que não tenho mais tanta agonia nos pés e eu disse que não tenho mais tanta agonia na vida. Senti meu coração cheio de amor e de esperança e de alegria e era mesmo o que precisava pra agüentar o que estava por vir.
Pouco tempo depois, o telefone tocou e soube que quando tio Dudu me disse “tchau, amor” na terça-feira, lá naquele hospital, foi mesmo a última vez.
Pouco tempo depois, o telefone tocou e soube que quando tio Dudu me disse “tchau, amor” na terça-feira, lá naquele hospital, foi mesmo a última vez.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Diarices.
Quanto mais me acostumo com rotina da gente, mas fica difícil voltar pra casa dela.
Que também é minha, mas não tão minha, quanto aquela que é minha e dele, onde moro cada vez mais.
.
Ontem, que era dia de despedida, ganhei um jantar bonito que só.
Mas, a gente é guloso e comeu tapioca da moça da esquina antes e tudo sobrou.
Até o sorvete de creme ficou lá.
Quis demais ficar acordada até mais tarde, mas me é tão impossível às segundas-feiras...
.
São só 15 dias.
São só 15 dias.
Feito mantra, que é pra ver se o tempo passa mais rápido. Não passa.
Amanhã vai ficar tudo bem. Hoje não.
.
Tenho sido menos dramática.
E isso não tem sido um sacrifício maiordomundo.
Deve ser porque são tantos os problemas maiores. Digo, no mundo.
Muito embora, vezenquando, os problemas maiores do mundo não contem.
.
Chove.
Chuvinha besta.
Parece que os próximos dias vão ser mesmo nublados.
Que também é minha, mas não tão minha, quanto aquela que é minha e dele, onde moro cada vez mais.
.
Ontem, que era dia de despedida, ganhei um jantar bonito que só.
Mas, a gente é guloso e comeu tapioca da moça da esquina antes e tudo sobrou.
Até o sorvete de creme ficou lá.
Quis demais ficar acordada até mais tarde, mas me é tão impossível às segundas-feiras...
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São só 15 dias.
São só 15 dias.
Feito mantra, que é pra ver se o tempo passa mais rápido. Não passa.
Amanhã vai ficar tudo bem. Hoje não.
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Tenho sido menos dramática.
E isso não tem sido um sacrifício maiordomundo.
Deve ser porque são tantos os problemas maiores. Digo, no mundo.
Muito embora, vezenquando, os problemas maiores do mundo não contem.
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Chove.
Chuvinha besta.
Parece que os próximos dias vão ser mesmo nublados.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Era véspera de Natal.
Ele pegou os presentes e foi pro quarto da filha – nessa época, acho que era uma só – olhou pra mim com os olhos azuis mais bonitos e disse:
- Não diz pra ela que fui eu que coloquei os presentes lá não.
E não adiantou todo o esforço do meu pai em fingir surpresa ao ver o que a gente tinha ganho no dia seguinte. Tio Dudu me revelou um dos mistérios do Universo: Papai Noel não existe.
Muito me espantou ele nem desconfiar que eu ainda acreditava. Não lembro que idade tinha, mas era só dois anos mais velha que a filha dele.
Também me surpreendeu perceber que ele não me sabia tanto assim. Durante muito tempo, achei que me adivinhava. Não esqueço dos sustos que tomava quando ele aparecia na varanda – o apartamento dele era colado ao meu – bem na hora em que eu colocava a chupeta proibida na boca. Tinha que ser muito rápida pra tentar esconder embaixo da almofada do sofá.
Não sei o que aconteceu. Não sei porque a gente foi morar longe. Mas, cada visita enchia o coração da minha avó de uma alegria medonha. O nome dele era doce em seus lábios. Achava injusto que a minha mãe não recebesse o mesmo carinho. Nessa época, não sabia que a convivência maltrata o amor, não entendia de afinidades, nem de incondicionalidades.
Ele tocava violão. Ele dormia na rede. Ele fumava. Ele bebia. Ele sorria bonito. Ele tinha muitas namoradas. Às vezes, falava alto e conversava com a gente. Às vezes, ficava quieto e em silêncio. Não entendia porquê, até ver repetido em mim o mesmo comportamento.
Nunca gostei de ouvir coisas feias a seu respeito. Pra mim, eram tão claras as escolhas, assim como o direito a elas. E queria que ele soubesse que eu sabia, queria que ele soubesse que era a favor de ser o que se quisesse ser.
Sempre foi um estranhamento pra mim, ele me pedir que estivesse mais perto, que fosse mais carinhosa e demonstrasse os sentimentos de afeto e ternura de um jeito que não me era possível. Achava que ele entendia das diferenças das gentes e de como cada um lida com o Outro de uma forma absolutamente única. De como não podia ser com ele, como era com as outras pessoas, porque ele não era como as outras pessoas, ele não é.
Agora, ele tá ali naquele hospital. E é engraçado como tudo parece mais fácil, mais simples, mais claro, apesar do difícil que é. Sinto que ele olha e me vê. Assim, completamente, como eu o vi toda a vida. Aí, eu fico feliz, mesmo quando triste. Penso que a vida se revela mágica, quando a gente menos espera.
- Não diz pra ela que fui eu que coloquei os presentes lá não.
E não adiantou todo o esforço do meu pai em fingir surpresa ao ver o que a gente tinha ganho no dia seguinte. Tio Dudu me revelou um dos mistérios do Universo: Papai Noel não existe.
Muito me espantou ele nem desconfiar que eu ainda acreditava. Não lembro que idade tinha, mas era só dois anos mais velha que a filha dele.
Também me surpreendeu perceber que ele não me sabia tanto assim. Durante muito tempo, achei que me adivinhava. Não esqueço dos sustos que tomava quando ele aparecia na varanda – o apartamento dele era colado ao meu – bem na hora em que eu colocava a chupeta proibida na boca. Tinha que ser muito rápida pra tentar esconder embaixo da almofada do sofá.
Não sei o que aconteceu. Não sei porque a gente foi morar longe. Mas, cada visita enchia o coração da minha avó de uma alegria medonha. O nome dele era doce em seus lábios. Achava injusto que a minha mãe não recebesse o mesmo carinho. Nessa época, não sabia que a convivência maltrata o amor, não entendia de afinidades, nem de incondicionalidades.
Ele tocava violão. Ele dormia na rede. Ele fumava. Ele bebia. Ele sorria bonito. Ele tinha muitas namoradas. Às vezes, falava alto e conversava com a gente. Às vezes, ficava quieto e em silêncio. Não entendia porquê, até ver repetido em mim o mesmo comportamento.
Nunca gostei de ouvir coisas feias a seu respeito. Pra mim, eram tão claras as escolhas, assim como o direito a elas. E queria que ele soubesse que eu sabia, queria que ele soubesse que era a favor de ser o que se quisesse ser.
Sempre foi um estranhamento pra mim, ele me pedir que estivesse mais perto, que fosse mais carinhosa e demonstrasse os sentimentos de afeto e ternura de um jeito que não me era possível. Achava que ele entendia das diferenças das gentes e de como cada um lida com o Outro de uma forma absolutamente única. De como não podia ser com ele, como era com as outras pessoas, porque ele não era como as outras pessoas, ele não é.
Agora, ele tá ali naquele hospital. E é engraçado como tudo parece mais fácil, mais simples, mais claro, apesar do difícil que é. Sinto que ele olha e me vê. Assim, completamente, como eu o vi toda a vida. Aí, eu fico feliz, mesmo quando triste. Penso que a vida se revela mágica, quando a gente menos espera.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Parece que não tem mais jeito.
Dizer “parece que não tem mais jeito” é muito otimismo da minha parte.
Uma esperança que, pelo que dizem, não tem mais razão de ser.
Mas, que não consigo abandonar.
É tudo muito doido e doído.
Não consigo nem pensar logicamente a respeito.
Porque os sentimentos chegam todos antes da razão.
É um tempo de espera.
Mas, de uma espera ruim.
Você acorda e pensa que tá tudo bem e lembra e tá tudo errado.
Absurdamente errado.
Não é tristeza que sinto, é assombramento.
Uma esperança que, pelo que dizem, não tem mais razão de ser.
Mas, que não consigo abandonar.
É tudo muito doido e doído.
Não consigo nem pensar logicamente a respeito.
Porque os sentimentos chegam todos antes da razão.
É um tempo de espera.
Mas, de uma espera ruim.
Você acorda e pensa que tá tudo bem e lembra e tá tudo errado.
Absurdamente errado.
Não é tristeza que sinto, é assombramento.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Ontem foi difícil estar lá.
Ouvir as notícias que não eram boas e voltar pra casa como se a vida continuasse igual.
Dá um aperto no peito só de pensar no que está por vir.
Acho tão doído, tão impossível de agüentar.
De aceitar não, porque a vida é imprevisível mesmo.
A rotina salva a gente do desamparo.
Mas, essa proteção é absolutamente ilusória.
Não, não tô triste.
Os dias têm sido alegres até.
Só que quando paro e penso e lembro, a garganta seca e o coração acelera.
Dos aprendizados, não queria esse pra mim, nem pra ninguém.
Dá um aperto no peito só de pensar no que está por vir.
Acho tão doído, tão impossível de agüentar.
De aceitar não, porque a vida é imprevisível mesmo.
A rotina salva a gente do desamparo.
Mas, essa proteção é absolutamente ilusória.
Não, não tô triste.
Os dias têm sido alegres até.
Só que quando paro e penso e lembro, a garganta seca e o coração acelera.
Dos aprendizados, não queria esse pra mim, nem pra ninguém.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Inspira. Expira.
E de novo, eu tenho esperança - dessas enormes - de que tudo vai dar certo.
Uma notícia, que ainda não é a desejada, mas que há de ser.
Porque ele merece.
Porque eu mereço.
E entrego - de (muito) bom grado - esse merecimento que é meu, pra ele.
É assim quando a gente ama total e incondicionalmente.
E eu amo.
E esse sentimento que começa aqui dentro, se espalha pelo mundo.
O vento, Tarso, o vento sopra a favor.
Uma notícia, que ainda não é a desejada, mas que há de ser.
Porque ele merece.
Porque eu mereço.
E entrego - de (muito) bom grado - esse merecimento que é meu, pra ele.
É assim quando a gente ama total e incondicionalmente.
E eu amo.
E esse sentimento que começa aqui dentro, se espalha pelo mundo.
O vento, Tarso, o vento sopra a favor.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Dos aperreios.
Já tinha aquele, o mais grave.
E a única coisa que posso fazer é aprender a conviver com o peso-enorme do problema.
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
O dia todo, todo dia.
Porque não passa.
Alivia, mas não passa.
Vezenquando, penso que não vou aguentar.
Depois, sigo a vida.
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
Fora os aperreios pequenininhos, que não são tão pequenininhos assim.
Aperreios de tempos atrás, que não se resolvem, que não resolvo.
E vão aumentando feito aquele problema maior, o mais grave.
Melhor nem pensar nisso...
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
Aí, ele me liga e me assusta com a possibilidade mais indesejada.
Não desabo, porque é uma possibilidade.
Mas não durmo, porque é uma possibilidade.
E lembro de tudo e quero tudo e desisto de tudo.
O jeito é me concentrar no agora e deixar esse aperreio pra quando chegar a hora.
Se chegar a hora.
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
E a única coisa que posso fazer é aprender a conviver com o peso-enorme do problema.
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
O dia todo, todo dia.
Porque não passa.
Alivia, mas não passa.
Vezenquando, penso que não vou aguentar.
Depois, sigo a vida.
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
Fora os aperreios pequenininhos, que não são tão pequenininhos assim.
Aperreios de tempos atrás, que não se resolvem, que não resolvo.
E vão aumentando feito aquele problema maior, o mais grave.
Melhor nem pensar nisso...
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
Aí, ele me liga e me assusta com a possibilidade mais indesejada.
Não desabo, porque é uma possibilidade.
Mas não durmo, porque é uma possibilidade.
E lembro de tudo e quero tudo e desisto de tudo.
O jeito é me concentrar no agora e deixar esse aperreio pra quando chegar a hora.
Se chegar a hora.
Vou tentando e conseguindo e não conseguindo pra conseguir de novo ali na frente.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
A saia da moça tinha uma fita roxa.
E era coisa bonita de se ver. Ela andava apressada, puxando a filha pelo braço, sem nem se dar conta de como a fita roxa da sua saia me fazia sentir um calor contente no peito. Tudo era agora. O pensamento preso naquele exato instante. Um respiro. De alívio.
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