segunda-feira, 20 de março de 2017

Do mergulho que se dá pra dentro.

E com o corpo pintado de dourado, parou em frente ao mar. Quis ser sol. Enterrou os pés na areia, mas no vai e vem das ondas, criou raízes e virou árvore. O cabelo ao vento era um emaranhado igual ao seu coração. Fez uma oração pra Iemanjá. Fez uma oração pra força criadora de tudo que seus olhos podiam alcançar. Pedindo clareza e desembaraço. Fez o sinal da cruz, por respeito e proteção. Porque o mar não é para fracos, nem desavisados. Mergulhou até onde o ar lhe permitiu, abriu os olhos e viu o mundo do avesso, que é o lado certo, afinal. Ondulado, fluido, desfocado, meio borrado, mas refletindo luz. Feito ela. Feito todas elas. Que é uma, mas é muitas, é todas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre esse cansaço.

Empurrar pedra ladeira acima. Sentar com ela apoiada nas costas e não dormir, pra não ser atropelada por ela de volta. Vigília. Vigília de dias, meses, anos. Os olhos ardem, o corpo dói, a cabeça lateja. E os sentimentos não encontram mais ordem. Nem os pensamentos. Na cabeça, uma bagunça só. E você tenta arrumar, enquanto empurra a pedra ladeira acima. Se concentra no que dói, no que alegra, no que faz chorar, no que faz sorrir. E chora e ri. E não sente nada, além de uma letargia, porque sentir também cansa e você sente tudo gigante, imenso, intenso. Maior que a pedra ou, talvez, seja a pedra que você empurra ladeira acima. Aquela história do peso do mundo nos ombros. Mas, é o peso de uma pessoa só: você. Toneladas. Se fosse só o corpo. Mas o corpo é pena, o que pesa é a alma de chumbo. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um amor que é

Porque estar é pouco, estar nem chega perto. Um amor atemporal. Sem regras, nem rédeas, feito aquele cavalo selvagem de Clarice, a Lispector e que mora dentro da gente. De mim, pelo menos. Um amor desgovernado, que atropela, passa por cima, sem dó, nem piedade.  Mas resplandece de luz, beleza e uma riqueza tão grandes, que a gente diz: “quero é mais”. Porque só é possível querer mais. Num mundo de praticidades, de “não pode, não deve, não vai, não faz”, desobedece e sorri radiante. Não tem lei. Não tem dono, rei, nem rainha. Um amor primeiro e primitivo, que mora perto do que há de mais instintivo do ser. Um amor que grita urgência, que é criança pequena e quer sair correndo portão afora, rua afora, mundo afora. Um amor que fere quando não se satisfaz. E que quer mais e mais e mais. Tem fome e devora a vida, porque não sabe estar. É um amor que é. E sendo, precisa existir. Respirar e inspirar. Por enquanto, suspira afobado. E sufoca, mas não morre é nunca.