quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Com você, desentendi o amor.

Desconstruí, desacreditei. O amor por você. O amor por mim. O amor pelo que chamava de nós. Desatou. Desabou, desapareceu e me derrubou. Uma rasteira. Uma faca enfiada no coração. Mais fundo, mais fundo, mais fundo. E sangro todos os dias. E faço desenhos bonitos num vermelho-vivo-pulsante. Desenho, porque as palavras não cabem. A razão não cabe. Mas, tentei entender. Tentei, eu juro. O amor por você. O amor por mim. O amor pelo que chamava de nós. Deitada, olhando pro teto com a mente a mais de 100km por hora. 200, 300, acelerando até a exaustão. Pra quê? Pra decifrar você. E a mim. E ao que chamava de nós. Essa esfinge que me devora todos os dias. Sem pausa, nem descanso. Até quando? Te sinto onde você já foi embora.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Chão

Que também é pouso. Que também é lar. Terra. Os pés bem firmes em. Estar. Ficar. Fincar raízes. Aportar. No abraço. No abrigo. No sorriso fácil. Na luz dourada que invade a tarde e esquenta e assenta. A poeira. O pensamento. O coração. E os pés. No chão. Que é mato. Flor no vaso. Amarela. Chão que é ninho. Parada. Descanso do mundo de fora. Descanso do mundo de dentro. Sento e espero. Sinto e espero. Em paz.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A sua palavra.

Peça de quebra-cabeça. Tento encaixar. Tento de novo. Teimo. Insisto. Procuro o par, desencontro. O desenho não se forma, sequer se adivinha. Uma pista, que seja, não tenho. Montanha? Nave espacial? Praia deserta? O que vejo é uma figura desfigurada. Talvez, o retrato de mim mesma. Incompleta. Incrongruente. Partida e sem conserto. Desmonto. Desfaço. Desisto. Deito, mas não consigo descansar. Me pego montando o quebra-cabeça mentalmente. Uma palavra, outra, uma peça, outra, nada se encaixa, tudo embaralha e não há cartas na mesa, além das minhas. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Do mergulho que se dá pra dentro.

E com o corpo pintado de dourado, parou em frente ao mar. Quis ser sol. Enterrou os pés na areia, mas no vai e vem das ondas, criou raízes e virou árvore. O cabelo ao vento era um emaranhado igual ao seu coração. Fez uma oração pra Iemanjá. Fez uma oração pra força criadora de tudo que seus olhos podiam alcançar. Pedindo clareza e desembaraço. Fez o sinal da cruz, por respeito e proteção. Porque o mar não é para fracos, nem desavisados. Mergulhou até onde o ar lhe permitiu, abriu os olhos e viu o mundo do avesso, que é o lado certo, afinal. Ondulado, fluido, desfocado, meio borrado, mas refletindo luz. Feito ela. Feito todas elas. Que é uma, mas é muitas, é todas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre esse cansaço.

Empurrar pedra ladeira acima. Sentar com ela apoiada nas costas e não dormir, pra não ser atropelada por ela de volta. Vigília. Vigília de dias, meses, anos. Os olhos ardem, o corpo dói, a cabeça lateja. E os sentimentos não encontram mais ordem. Nem os pensamentos. Na cabeça, uma bagunça só. E você tenta arrumar, enquanto empurra a pedra ladeira acima. Se concentra no que dói, no que alegra, no que faz chorar, no que faz sorrir. E chora e ri. E não sente nada, além de uma letargia, porque sentir também cansa e você sente tudo gigante, imenso, intenso. Maior que a pedra ou, talvez, seja a pedra que você empurra ladeira acima. Aquela história do peso do mundo nos ombros. Mas, é o peso de uma pessoa só: você. Toneladas. Se fosse só o corpo. Mas o corpo é pena, o que pesa é a alma de chumbo. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um amor que é

Porque estar é pouco, estar nem chega perto. Um amor atemporal. Sem regras, nem rédeas, feito aquele cavalo selvagem de Clarice, a Lispector e que mora dentro da gente. De mim, pelo menos. Um amor desgovernado, que atropela, passa por cima, sem dó, nem piedade.  Mas resplandece de luz, beleza e uma riqueza tão grandes, que a gente diz: “quero é mais”. Porque só é possível querer mais. Num mundo de praticidades, de “não pode, não deve, não vai, não faz”, desobedece e sorri radiante. Não tem lei. Não tem dono, rei, nem rainha. Um amor primeiro e primitivo, que mora perto do que há de mais instintivo do ser. Um amor que grita urgência, que é criança pequena e quer sair correndo portão afora, rua afora, mundo afora. Um amor que fere quando não se satisfaz. E que quer mais e mais e mais. Tem fome e devora a vida, porque não sabe estar. É um amor que é. E sendo, precisa existir. Respirar e inspirar. Por enquanto, suspira afobado. E sufoca, mas não morre é nunca.