segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Janeiro feroz

O dia começou com a notícia do assassinato de Seu Lucas, dono do fusquinha laranja, o único da frota de táxis do Recife. Ele fazia ponto ali no Hospital da Restauração e circulava pelas ruas da cidade há mais de 30 anos. Ameaçado pela lei municipal que proíbe veículos com mais de cinco anos de uso de prestar serviço como táxi, Seu Lucas estava prestes a aposentar o seu fusca laranja, modelo 76. Mas, parou antes. Parou não, foi parado. Três bandidos o mataram a facadas. Ao 59 anos, Seu Lucas encerrou as suas atividades de maneira brutal. E com ele, morre muito mais. Morre um tanto de esperança e fé na humanidade. Até porque, Seu Lucas é só um exemplo. Um entre milhares, que são assaltados, espancados, violentados, todos os dias nas ruas do Recife. Eu não entendo. Vejo e não entendo. Não entendo, nem aceito. É um mundo zangado esse. Um mundo raivoso. À tarde, teve passeata dos estudantes na Conde da Boa Vista, contra o aumento das passagens de ônibus. O aumento das passagens de ônibus em um sistema de transporte caótico, ultrapassado, que não respeita nada, nem ninguém. E aí vejo a foto de um policial dando uma gravata numa menina. Numa menina! Não sei o que aconteceu, não estava lá, mas era uma menina e ele um homem responsável pela manutenção da lei e da ordem. Que lei e que ordem? A favor de quem? Contra o quê? Acho que ninguém sabe mais e me pergunto se alguém ainda quer saber. Janeiro começou feroz.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ainda não vi essa fotografia.

Essa em que você aparece de vestido branco e cabelo solto. Essa de quando o seu cabelo ainda era comprido, ainda era castanho, ainda era cacheado. Quantos anos você tinha? 13, 14? Você com pés descalços na areia. Os pés grandes demais pro resto do corpo. “Como é franzina essa menina”, lembra? Uma promessa de mulher. O vestido branco dançava ao seu redor e você sorria na fotografia. Essa que eu ainda não vi.

Você sabe do meu medo.

Sabe das unhas roídas. Dos dentes trincados. Da falta de fome e de sono.
Sabe que o meu pensamento não conhece descanso.
Sabe que tudo fala comigo sobre o pior.
Sabe que eu presto atenção do jeito errado.
Sabe que talvez seja exagero. Mas, talvez não.
Você sabe do meu medo. Mas, e o seu medo, qual é?

Eu só queria jogar esses papéis fora e deixar pra lá.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O teu nome.

Ranger de dentes em noite escura. O barulho do mar quebrando. Quebranto. Reza pra Nossa Senhora, minha filha. Um terço inteiro. Enquanto esse nó no peito, desata. Falta o ar, mas deve ser o calor. Faz muito calor, mesmo quando chove. E chove. Chuva de janeiro. Chuva que vem forte e vai embora, feito esse pensamento. Intrometido.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O meu bom dia abusado.

O chão de madeira sob o sol, sobre a cidade. O chão de madeira esquenta. Da luz que entra pela janela, poeira. Ouço o barulho na cozinha. É você. O barulho na cozinha, os recados na geladeira, o cheiro de café e pão torrado. O piso alaranjado é feio. As cerâmicas de duas cores, desequilibram. Mas você, de tanto sol, amorenou. Eu reparo. Paro e acho bonito. Esqueço de fechar a torneira da pia, enquanto lavo os pratos e ouço a sua voz de sono reclamar: “olha a água do mundo”. O meu bom dia abusado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Eu ouço e danço.

Primeiro.
Eu só conseguia olhar o que acontecia lá fora, em cima de um banquinho ou no colo de alguém.
As folhas do coqueiro alcançavam a varanda, eu não.
Mas, sabia que bastava atravessar a rua para ver o mar.
Lembro de ver a minha mãe saindo pra trabalhar e de sentir o coração doer de saudade pela primeira vez na vida.
Eu e a minha avó, duas choronas.
Às vezes, da varanda do apartamento ao lado, aparecia Tio Dudu ou Tia Anália e eu tinha que esconder depressa a chupeta embaixo da almofada do sofá.
O som das folhas do coqueiro.
Da vizinha chamando o meu nome.
Do choro do meu irmão.

Segundo.
Da janela do quarto, eu via o mundo que eram as papoulas lá embaixo e um horizonte de prédios.
Papoulas amarelas e vermelhas acordavam cedo, assim como eu.
À noite, eram as luzes das janelas que acendiam antes da lua.
Uma vez, vi um morto na rua da frente.
As pessoas chegavam e levantavam o lençol pra ver quem era.
A viúva chorava desesperada.
Um acontecimento.
Outro, era dia de Cosme e Damião.
O som do meu pai e minha mãe conversando até mais tarde.
Do arrastar dos chinelos da minha avó.
Do riso do meu irmão.

Terceiro.
A janela ocupava a parede inteira e eu via a Igreja da Soledade.
Muito carro, muita gente e a pessoa escolhida acenando pra mim.
Pela primeira vez, longe do mar, bem no centro da cidade.
Dali, avistava a praça, a farmácia, a padaria, a universidade.
Muito carro, muita gente e a pessoa escolhida sorrindo pra mim.
O chaveiro, o vendedor de tapetes, o lava-jato, o estacionamento.
Aos domingos, não tinha ninguém.
O som dos carros e das vozes.
Do sotaque estrangeiro
De música colombiana.

Quarto
Vejo prédio de tudo que é lado.
Um restaurante disfarçado de castelo.
Dá pra acompanhar a vida alheia e o ir e vir dos pombos que moram nas caixas de ar-condicionado.
Uma avenida que quase nunca para, mas a praia é logo ali outra vez.
A moça do milho, o manobrista do restaurante, os cachorros e os seus donos.
Os velhinhos caminhando, um bem-te-vi, aqui e ali.
Esses dias, as luzes de Natal e uma certa nostalgia.
O som de buzinas e freadas.
Das vozes da vizinhança.
Do meu par dedilhando o teclado do computador ou o violão.

Eu ouço e danço.
Eu sempre dancei, desde pequenininha.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Eu quebrei o copo e quis ir embora.

Eu quis ir embora na hora em que cheguei. Quem são essas pessoas? O que é que eu tô fazendo aqui? Por que eu não tô na minha casa, na minha cama, na minha vida? Um casal moderno. Num apartamento moderno. As roupas, as palavras, os gestos. A minha cabeça doía terrivelmente e eu não entendia, eu tentava abstrair e não conseguia. Não, eu não conheço essa música. Não, eu não conheço essa banda. Não, eu não fui nessa festa. É que eu moro longe e acordo cedo. É que. Como se fosse necessário. Como se alguém se importasse. Era como se eu nem estivesse ali. Eles nem me viam e eu queria sumir de verdade. Fui ao banheiro e quebrei aquele copo. Aí, chorei. E ele nem percebeu. Ele nem percebia.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Eram meninos correndo por cima dos telhados.

Meninos mocinhos e bandidos. Meninos com pernas e pipas ágeis. Saltavam de um telhado para outro, porque em seu reino o medo não existia e a lua sorria marota. Eram meninos. Eram só as pipas, presas, sem as suas pernas ágeis. Eram pipas presas nos fios de alta tensão. Era noite. A lua sorria marota e os olhos só enxergavam o que queriam ver.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Para Helena Sá Barreto, minha mãe.

Foi um susto olhar a foto dela e pensar que era eu.
Ela, que sempre foi a mais bonita.
Ela, que eu queria ser quando crescer.
De quem eu quebrei a coroa, o colar e ainda desfiei a meia-fina.
Eu que era um desastre, filha dela que era a perfeição.
E ainda diziam que a gente se parecia, quando eu me sentia uma estranha no ninho.
Querendo a sua aprovação, a sua benção, o seu carinho.
Sem saber que estavam lá, que sempre estiveram lá.
Mesmo sem as palavras e os gestos esperados.
Porque as palavras e os gestos esperados podem não acontecer.
Dela pra mim, de mim pra ela.
Ela que foi o meu primeiro amor.
A primeira pele, o primeiro cheiro, o primeiro encontro.
Ela, que é rainha. A minha. Pra quem eu construiria todos os castelos.
O que talvez, ela nem saiba.
Ah, ela sabe.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Não fala nada

Silencia dolorido e é sempre noite.
Os lençóis são coloridos, mas a luz está apagada.
Sorrio pra ninguém e sinto uma quase alegria.
Feito chama de vela, quando falta energia.
Pouco, mas suficiente.
Suficiente me basta.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

E tem esse lugar onde se é rainha.

No território desconhecido que é o Outro, é onde está fincada a nossa bandeira. A minha, tem um arco-íris, um sol, uma estrela e uma cruz vermelha. Tremula sob um calor de quase 40 graus. Mas, tem brisa. No Nordeste sempre tem brisa, Anarina. É nesse lugar imaginário que habito, como lembrança ou possibilidade. E em cada Outro, sou uma diferente de mim mesma. Embora tenha o mesmo cheiro, a mesma voz e as mesmas cores, cada um me traduz dentro de si a seu modo. Eu deixo. Eu gosto. Invento um porto pra cuidar do meu reino. Construo um forte de cinco pontas e levo os meus barcos para o mar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dos janeiros e fevereiros.

Veraneio era a casa com mais de cem anos em Porto de Galinhas. Chão de pedra. Cama de campanha para os mais velhos, colchão na sala para os mais novos. A espera do sol pelas frestas da porta pintada de vermelho. O barulho do mar, sempre o barulho do mar. O terraço de onde se avistava uma imensidão de areia branquinha. A água morna do primeiro mergulho. Só os olhos à vista. Nadar até os barcos, puxar a âncora e depois não saber como colocar no lugar. Passeio de jangada e medo de tubarão. Furar o pé no ouriço. Arranhar o joelho nas pedras. Esperar a moça da cocada, sentindo a tarde esfriar. Deitar no colo da avó. Sonhar ser sereia e acordar criança.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

E fez-se o encanto.

A menorá e as palavras escritas em hebraico. O kipá dos homens e a beleza das mulheres. Os abraços contidos. Os sentimentos, que iam do sorriso de reencontro ao desespero do pranto. A crença, a fé, os rituais milenares. Levados no sangue e na alma, de geração em geração. Mesmo na dor há beleza. E na despedida mais difícil, o renascimento. O encanto, guardo comigo. Sou olhos, ouvidos, braços e coração.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Foi hoje.

Atravesso a ponte e chego ao centro. O coração do Recife pulsa acelerado. O que me alcança é o som das buzinas, os passos apressados das gentes, as luzes de Natal. Acendem e me apagam. Faróis dos carros, sinais de trânsito. O cheiro de churrasquinho e o perfume enjoado da moça se misturam. Sinto cansaço. Sinto saudade. Mas, não há outro lugar onde deseje estar. Lembro da noite de chuva na Rua do Sol. Passo pela Guararapes e vejo as cores do Carnaval, mesmo sem a fantasia. Na praça, uma pregação. Lojas abertas até mais tarde. Estação Central lotada. No Leite, a gente só pediu "uma água, por favor". Há mais de 10 anos e parece que foi ontem. Foi hoje.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Feliz ano novo.

Eu não tava com vontade de ir. 2010 foi um ano complicado e me pareceu meio sem sentido, sem propósito. Nos dois anos anteriores, acordei animada, vesti azul e subi, feliz, o morro. Dessa vez, me faltou coragem. Mas, era uma espécie de compromisso. Nem sei direito com o quê ou com quem. Talvez, comigo. Talvez, com essa esperança na fé. Talvez. É complicado entender, quando a religião não é aprendida e sim apreendida. Mais pela intuição, que pela igreja. Você segue, sem saber exatamente pra onde, mas segue como se não houvesse outra direção. E vai. E eu fui. E tudo foi mais difícil, mais aperreado, mais demorado. Quase não chegava lá, quase perdia a paciência, quase passava mal só de olhar a multidão na escadaria. Mas, tem sempre essa força, que cada um nomeia como lhe convém e que faz seguir em frente. Ou, nesse caso, pra cima. 365 degraus. Segurando o corrimão vermelho por medo de cair. Olhando a água que descia veloz e pensando no que queria que ela lavasse e levasse embora. Um olhar vigilante logo atrás e o conforto das palavras "tá tudo bem". Parei no meio do caminho. Por causa da moça subindo de joelhos, por causa da senhora que mal podia andar, por causa do sol, do calor, do cansaço, do fôlego que falta. Lá no alto, pela primeira vez, meu olhar sabia exatamente o que procurar. E chorei. Por tudo. Por todos. Pelo que dói, pelo que assusta, pelo que paralisa. Um choro desses que vem lá do fundo da alma, onde nem o pensamento alcança. Pedi força e coragem. Agradeci, porque sempre há pelo que agradecer. Senti amor e alento, de um jeito que não dá pra explicar a quem não esteve lá, a quem não está aqui dentro. 2010 ficou pra trás. Que 2011 seja mais leve.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Novembro no Rio de Janeiro III

No café da manhã do hotel, só se falava espanhol. Vários sotaques diferentes dessa língua que, durante anos, habitou a minha casa e a minha alma. Acordei num país estrangeiro e fazia sol. A intenção era ir até o centro. Mas, intenção é só uma ideia. No caminho: Copacabana, Botafogo e Flamengo, que nem reparei da primeira vez e hoje achei tão bonito! Penso que deve ser muito melhor passear ali entre-árvores, que no sol inclemente da Avenida Atlântica... Ao invés do centro do Rio de Janeiro, fui conhecer o centro de Niterói. Na ida, travessia de balsa. Na volta, atravessamos a ponte gigantesca. E era tanto barco. E era tanto mar. Antes, foi bonito ver o Rio de Janeiro do Mac e descobrir que a praia ali na frente é a de Boa Viagem. Podia mudar de cidade, sem mudar de bairro. Na volta, Sambódromo, Cemitério do Caju, uma catedral igualzinha a de Fortaleza e uma comunidade com casinhas azuis de Iemanjá. Parada em Botafogo, pra ver o Pão de Açúcar exatamente como nos cartões postais, que é o que não falta nessa maravilha de cidade.

Rio de Janeiro em novembro (II)

Ipanema de manhã cedinho. Ruas de acesso à beira-mar já interditadas. Gente chegando de tudo que é canto, de tudo que é jeito pro domingo na praia. Finalmente, fez sol. Metrô até o Largo do Machado com seus velhinhos e flores. De lá, pro Cosme Velho, passando pelo bairro das Laranjeiras que satisfeito sorri. Sinto que meu coração se apaixonando pelo Rio de Janeiro de prédios antigos e morros atrás dos prédios. Taxistas dizem que é muito melhor ir com eles até o Cristo, mas é preciso subir naquele trenzinho vermelho cheio de turistas italianos que falam muito e falam alto. Só param na hora de disparar os flashes das suas supercâmeras para fotografar jacas. A cidade vai ficando lá embaixo e lá em cima o que se vê é um Cristo Redentor cercado de nuvens, abençoando a cidade coberta por um véu branco. É como se não houvesse nada além daquele lugar, daquele momento. E a turista italiana diz "que pecado!". Eu acho bonito. Mas, mais bonito é quando o céu se abre e descortina um Rio de Janeiro, maravilhoso. Almoço no Catete. Vontade de ver o Aterro do Flamengo, mas fica pra outra hora. É preciso chegar na Urca e pegar o bondinho pro Pão de Açúcar. Uma babilônia. Lá no alto, lá no mais alto possível, vejo a cidade em seu esplendor e penso que nunca vi coisa mais linda nessa vida. Parada na padaria. Sanduíche com suco de laranja e a costumeira displicência carioca. Na volta, passeio por Copacabana. Gente andando, correndo, passeando de bicicleta, de skate, de patins. Depois, pôr do sol em Ipanema. Azul, púrpura, cor de rosa em laranja. O céu pegou fogo.

sábado, 6 de novembro de 2010

Rio de Janeiro em novembro

Uma viagem de três horas que dura uma noite inteira. Um mar de nuvens, antes de avistar o mar da Baia de Guanabara. Olha a Ponte Rio-Niterói! E os barcos parecem de brinquedo. Cinco horas da manhã no meu relógio. Seis, na cidade onde tinha acabado de chegar. O aeroporto é menor do que eu pensava e as pessoas não são todas lindas como na televisão. Um café com leite e um misto quente, por favor. Ônibus que vai pra Alvorada e passeia pelo Centro. O Recife aqui e ali, nos prédios que parecem aqueles que ficaram na Avenida Guararapes. Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, Gávea, São Conrado e Barra. E é muito mar nesse Rio de Janeiro. Muito mar e muita pedra. Frio na barriga cada vez que olhava pra baixo e via o mar quebrando nas pedras. Mar, quebrando, pedras. Chovia. Choveu o dia inteiro. Hotel cheio de espelhos, banheira e cheiro de madeira. Avenida Francisco Otaviano, esquina com Nossa Senhora de Copacabana. Passeio pelo Arpoador. Uma cidade tomada por todos os sotaques. Carne assada e batatas coradas no almoço na varanda do restaurante onde não haviam cariocas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cinco Pontas.

Lá, o sol deixa o branco mais branco, tudo é claro e tudo reluz. Gosto de olhar para o chão de pedra e pensar que guarda muito passado. Quantos pés? Quantos passos? Levei ali alguns dos meus amores e travei guerras inteiras dentro de mim. Os canhões já não tem utilidade, mas a fé continua vencendo batalhas. Da última vez, ele segurou a minha mão e me levou por um túnel escuro que ia dar no mar. Fechei os olhos e segui, continuo seguindo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Hoje, o dia é verde como os olhos dele.

Verde como mar em dia de sol. Porque ele é sol, aquece e ilumina. Um amor que não se nomeia, não se classifica e não se acaba é nunca. Entendimento sem explicação. Sorriso sem razão. Completude que só é possível quando o Outro faz parte da gente. Incondicionalmente, é teu meu bem querer.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Vai pra rua!

No meio do jantar naquele shopping de gente esquisita, ele comentou que ando lendo demais. Concordei que mais de 30 livros em menos de 5 meses é muito uma forma de fugir da realidade. Nos calamos e ficamos preocupados por 1 ou 2 minutos. Aí, eu disse que podia ser pior, podia fumar crack, por exemplo. A gente riu e desconsiderou os livros demais como problema. Já não é a primeira vez que me acontece. Certa vez, minha mãe disse que eu devia parar de ler e ir pra rua. Acho que tinha uns nove, dez anos. E não tava lendo, mas desenhando. Embora, isso não faça diferença. O importante era sair de casa, da casca, de dentro. Achei curioso isso. Por que ela achava que fora era um lugar melhor? Até hoje, não entendi e talvez esse seja meu maior problema. Talvez, não.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Fortaleza que também é minha.

Cheguei pela Praça do Ferreira. Onde se avista logo a coluna da hora e a gente segura a saia, porque o vento é brincalhão. Nunca tinha visto a Casa Leão do Sul tão cheia de gente. Acho que era dia de pastel e caldo de cana. Vi de relance a Farmácia Oswaldo Cruz com aquele ar de antigamente. A praça toda tem esse ar de antigamente, por isso foi estranho ver aqueles vídeos tão cheios de hoje-em-dia no São Luiz. Mas, o passado logo segura a mão da gente e leva escadaria de mármore acima, pra ver a platéia lá embaixo, hipnotizada com "O homem que engarrafava nuvens". Filme que assisti em outro São Luiz, o de Recife. Era tanta magia, que nem prestei atenção à casa de máquinas, porque não me importa como tudo funciona, prefiro viver a ilusão do cinema. Como se não houvesse a mão do homem por trás de tudo, como se fosse uma manifestação do divino. Assombroso foi ficar atrás da tela, como quem espia o sonho de alguém. Isso sim, não vou mais esquecer. Assim como não vou esquecer a sensação de olhar pela janelinha de projeção e ver as pessoas lá embaixo numa espécie de transe, sem me suspeitar, assim como não suspeito que haja mundo lá fora quando as luzes se apagam. Saí de lá com as mãos e os olhos cheios de passado pra me banhar no sol dessa Fortaleza de céu azul clarinho.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sabrina, aceita casar comigo?

Por volta das dez horas da noite, do dia 23 de abril, Sabrina foi pedida em casamento no Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza. Ela não vai esquecer, nem eu, que fiz côro de "casa! casa!" com todos os outros desconhecidos que desembarcaram do vôo JJ 3516 da Tam e não tiveram coragem de ir embora sem saber quem era Sabrina e se ela aceitaria o pedido escrito numa faixa. Ela aceitou. Depois de caminhar envergonhada até o noivo. Sabrina recebeu flores, beijos, abraços, uma aliança e um desejo enorme de felicidade daquelas pessoas que dificilmente vão estar novamente na mesma hora, no mesmo lugar que ela. Entre tantas idas e vindas, o encontro.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Hipnose

Enrola o cabelo e joga pro lado esquerdo do pescoço. Tira os óculos. Limpa os óculos. Coloca os óculos. Coça o nariz. Coça o nariz. Abre a bolsa. Olha dentro. Fecha a bolsa. Coça o nariz. Coça o nariz. Coça o nariz. Enrola ao cabelo e joga pro lado esquerdo do pescoço. Abre a bolsa. Tira o celular. Abre o celular. Fecha o celular. Guarda na bolsa. Coça o nariz. Fecha a bolsa. Coça o nariz. Coça o nariz. Enrola o cabelo e joga pro lado esquerdo do pescoço. Olha ao redor. Abre a bolsa. Fecha a bolsa. Coça o nariz. Coça o nariz. Abre a bolsa. Tira o celular. Abre o celular. Liga pra alguém que não atende. Fecha o celular. Guarda na bolsa. Fecha a bolsa. Tira os óculos. Limpa os óculos. Coloca os óculos. Coça o nariz. Coça o nariz. Enrola o cabelo e joga pro lado esquerdo do pescoço. Abre a bolsa. Olha dentro. Pega o celular. Guarda o celular sem abrir. Coça o nariz. Coça o nariz. Coça o nariz.

Não sei o que é mais grave: a seqüência repetitiva de movimentos dela ou a minha impossibilidade de parar de olhar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Ei pessoal, vem moçada.

Pra mim, o Galo da Madrugada é acordar cedo no Sábado de Zé Pereira, ainda cansada da folia da noite anterior.
É esperar meu pai passar pra me pegar e perguntar se eu tô pronta pra guerra, "porque o Galo é uma guerra".
É chegar na concentração ali no Forte das Cinco Pontas e achar lindo o povo fantasiado, enfeitado, colorido e começar a entrar no clima ouvindo a passagem de som dos trios.
É reclamar do calor e comprar água mineral gelada pra molhar a cabeça.
É sentir os olhos encherem de lágrimas quando tocam os clarins anunciando que a festa começou.
Porque Naná, o Prefeito, o Governador e as autoridades todas podem anunciar a abertura do Carnaval na sexta-feira, mas só começa de verdade, quando o Galo sai e toma conta do Recife.
Não adianta, não existe outro rei nos dias de Momo.
É correr pra Concórdia pra ver se encontra um lugar pra ficar.
É ficar olhando pra ponta da rua, esperando o primeiro trio que sempre se atrasa.
É cantar junto com milhares de pessoas e sentir o coração pulsar no ritmo do frevo.
É aguentar o tanto que se pode o sol, o calor, o tumulto.
É aproveitar o tanto que se pode a alegria, a emoção, a energia.
É não ter onde pisar no chão na hora de ir embora, de tanta gente.
É sair de lá com a alma em festa, sentindo que o Carnaval pode acabar ali, que a missão foi cumprida.
Pra mim, o Galo da Madrugada é um dragão todo colorido.
E incendeia a gente. Pra sempre.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Alívio.

Foi bom falar com ela sobre esses assuntos que sempre causam estranheza. Não demonstrou susto, nem surpresa. Tratou como coisa corriqueira, o que sempre é visto como gravidade. Gostei da desimportância.

domingo, 29 de novembro de 2009

29 de novembro.

Quando era pequena, ficava zangada com meu pai, quando ele falava que alguém tinha dito que eu parecia com ele. Eu dizia que não, de jeito nenhum, que todo mundo sabia que eu era a cara da minha mãe, que achava mais bonita.
O que eu não imaginava é que anos depois, a pessoa com quem eu mais gostaria de parecer nesse mundo seria ele.
Foi por isso que no dia 7 de fevereiro, o segundo dia mais triste de 2009, senti alegria quando ele me disse que, como tio Dudu tinha ido embora, eu ia ter que ajudá-lo a carregar o estandarte da irreverência.
E quando ele diz isso, entendo que fala dessa vontade de viver à vida de acordo com a fé que se tem. No que seu coração deseja com mais força. Não sei se consigo. Não sei se ele consegue mesmo hoje, aos 61. Mas, sei que ele tenta e tenta com força. Também quero tentar e peço a Deus que me dê coragem, porque é disso que a gente precisa nessa vida que, como ele diz: se a gente não abrir os braços, engole a gente.
Dele, herdei o amor pela vida, a alegria nas pequenas coisas e o coração de Carnaval. Com ele, aprendo que é preciso se colocar no lugar do outro, que a primeira impressão nem sempre é a verdadeira e que é importante olhar o bonito das pessoas, porque defeitos e pequenezas, todo mundo tem.
Só posso achar graça quando ele me diz que queria me dar mais. Sinceramente, acho que não seria possível.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O que eu desejo.

Desejo que haja cumplicidade.
Que o entendimento aconteça no olhar.
Que as palavras sejam estilingues e não pedras.
Desejo que haja tolerância e muita paciência.
Que os defeitos de um, não machuquem o outro.
Que as qualidades de um, não ofusquem o outro.
Desejo que o tempo seja generoso
Que os dias passem em paz.
Que as noites sejam de festa.
Desejo que a a rotina não seja cruel
Que a paixão seja sempre descoberta.
Que o abraço seja sempre conforto.
Desejo que as vontades caminhem de mãos dadas
Que as diferenças e distâncias só sirvam para aproximar.
E que a fé no amor, seja salvação para todos os dias.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Das belezas

Hoje, uma moça me disse que está construindo a melhora.
Bonito isso.