sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Pode ser.

Pode ser bonito. Pode ser mágico. Pode fazer sol. Mas, pode ser um dia nublado ou até chover. Pode ter uma praia só pra gente. Pode ter vento assanhando o cabelo, levantando a saia e trazendo a sua voz lá de longe, macia. Pode ter abraço demorado. Pode ter beijo também. Pode ter mãos dadas. Pode ter um horizonte feito de mar. Pode ter o coração cheio de uma alegria sempre nova e tão antiga. Pode o pensamento parar. Pode o desejo morar no estar. Naquela hora, Naquele lugar. Em mim, em você. Pode ser. É. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016



Ele me viu quando gritei de raiva abraçando o travesseiro. Chorando aquela dor profunda, que deixa a gente sem fôlego, sem força e sem chão. Ele me viu vomitar por não aguentar sentir tanto. Ele me viu e tocou cada marca que carrego no corpo, na alma e no coração. Com curiosidade e ternura. E me mostrou a mim mesma num espelho absurdo. E me fez mergulhar no que tinha de mais turvo e profundo. Ele me viu exausta de tanta realidade e soube que precisava de mais poesia nessa vida. Ele me viu perdida, levando comigo uma bússola que não funciona. Procurando uma saída, que talvez não haja. Ele viu o meu medo de nunca ser o bastante. Ou de sempre ser demais. Ele me viu tão sem medida, tão sem meio-termo, tão sem meio-tom. Ele me viu partida, tentando juntar as peças de um quebra-cabeças de peças trocadas. Ele me viu e eu sustentei o olhar. Nunca fui tão corajosa e ele me viu. 

sábado, 6 de agosto de 2016

O que você está dizendo?

O que você está dizendo? Ouço a sua voz e desconcentro. Sei que você procura um sentido. Sei que você preocupa um sentido. E pra mim, palavras soltas. Aqui e ali, uma luz, um brilho, um entendimento. Mas, meu entendimento tem pouco a ver com a sua explicação. Só adivinho. Só suponho. Pura intuição, sem qualquer base de razão. Razão, aliás, desconheço. Penso em amarelo. Penso em girassóis. Penso naquele pôr do sol rosa e lilás e de caminhar pela cidade sem fim. Palavras, carros, prédios, desce, sobe, vira, passos apressados. Segura a minha mão pra atravessar a rua. Segura a minha mão e não fala mais nada não, por favor. Mas, não falo nada. Não peço nada. Só rio. Sorrio e disfarço. E olho pras pessoas, me distraio com as pessoas. Apressadas. Porque sempre há pressa. A minha única pressa é de compreensão. Mas, compreensão é sempre lenta. Lenta como a sua voz, que tem música, maciez, riso e rouquidão. Mil histórias. Mil nadas desfilando no meu ouvindo, no meu pensamento. O que você está dizendo? Você está dizendo alguma coisa ou é só um disfarce pro silêncio. Penso. E calo. Porque quem fala é você. O quê? Eu não sei. Nem sei se saberei.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Eu sinto muito alto.



Sinto como quem grita. Barulheira, estorvo, confusão. Eu sinto mordendo os lábios, roendo as unhas, martelando o coração. Maquinando. Imaginando. Indo e indo e indo infinito e sem destino, mas com ímpeto de marcha. Eu sinto a pressa, a agonia e a urgência. Mas é que eu sinto o tempo se esvaindo, sabe? E não quero ficar presa - e não quero estar morta - na areia da ampulheta, que é movediça, que é teia e enreda. Eu sinto o sangue nas veias, puro instinto e atenção. Aflição também. É, aflição também. Eu sinto cada palavra, dita ou calada, cada parada, cada eco de respiração. Eu sinto riscando a pele, os papéis e as paredes. Amarelo, laranja e vermelho. Tudo vivo, pulsando, incendiando. Eu sinto lava e eu sei, te queimo.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Tem esse mar, que não dá pé.

Você nada. Mãos, braços, pernas. Tudo é movimento, pra não submergir. Um esforço interminável. Um cansaço inimaginável. O corpo arde. De sol e de sal. A alma sente. O sal e o sol e o cansaço e o esforço. Implacáveis. O que antes era beleza, dói. Até que você conversa com ela, que é Rainha desse Reino, e lhe diz que o melhor é se deixar levar. Parar de remar contra a maré. É mais fácil, mais leve, mais doce seguir a correnteza. Porque, na verdade, não há outro caminho, sabe? Nem outro sentido. É seguir o fluxo do tempo, da vida, do coração. E sim, isso assusta um bocado. Talvez, você vá parar lá no meio do mar e demore muito, muito, muito pra conseguir voltar à terra firme. Mas, talvez, acabe numa praia bonita, de areia branquinha. E é esse pensamento que precisa ser seu guia. Essa crença, essa fé, essa esperança. Porque as ondas não estão só do lado de fora, não. Mas do lado de dentro também. E essas, sim, são gigantescas e indomáveis. A saída é que não há saída, você só se entrega e vai. Navega. Até uma hora, cedo ou tarde, aportar.

terça-feira, 14 de junho de 2016

E essa noite, sou toda espada e escudo.

Marte, meu planeta regente acordou pra luta e arde. Ao seu redor, orbitam o meu corpo, alma e coração. Nessa guerra, em que enfrento a mim mesma, não há vencedor, nem perdedor. Danço comigo, enquanto me derrubo, me destruo, me destroço. Olho no meu olho, mordo a minha carne, bebo do meu sangue. Morro um pouco, pra renascer mais forte. Morro um pouco, pra renascer mais viva.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Você constrói um labirinto. Você se perde. Você não sabe onde está. Aponta a faca para o próprio pescoço e se assusta. Olha pra dentro.  Olha pra dentro horas seguidas e espera. Espera até o abismo lhe sorrir de volta, porque o abismo sempre sorri de volta. O abismo dá gargalhadas, meu amor. Esse é o truque, sabe? O fio da navalha e brilha. Brilha feito jóia rara. Brilha e espelha. Espelha o seu reflexo. O reflexo que você imagina ser seu. Partido. Quebrado. Fracionado. Em mil pedacinhos. Um milhão. Um número indizível de tão gigante. Você infinito. Você repetido e repetindo os mesmos erros. Mas, é só o labirinto. É só o abismo. É só o fio dessa navalha que lhe sangra o peito com a força das suas próprias mãos.

domingo, 12 de junho de 2016

Teve um 6 de fevereiro.

Teve um Baile da Saudade. Teve uma noite não dormida, onde ninguém deveria estar. Teve meu pai do outro lado da linha, falando de amor e amizade e do que não se acaba. Teve um compromisso acertado: levar adiante essa irreverência. Ele avisou: o preço é alto. E eu sei, eu sinto. Todos os dias. Mas, não é uma escolha. É aceitar quem se é e seguir em frente com coragem. Nem sempre, a gente consegue. Mas, tenta. E tentar já é um risco danado. Tentar já dói um bocado. Arranha a pele, arranca as unha e a gente sangra. Mas, tem essa sede que não passa. É, não passa é nunca. A gente disfarça, a gente se integra, a gente finge que anda pelo mundo como todo mundo. Mas, a sede de vida pulsa na alma. Não dá sossego. E tem hora que sufoca. E, sabe, é isso que faz a gente querer tudo hoje, agora, porque amanhã talvez não existirá. Porque amanhã, talvez, se extinguirá. A sede, a vida, a gente. Enquanto isso, o olhar permanece atento, a conversa é solta e o abraço, apertado. O choro é livre e o riso é fácil. Ele me disse e eu acredito: a festa é (ou não é) dentro da gente. O resto é só ilusão e faz de conta. Mas, faz de conta que não te contei, tá certo?

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Toquei a campainha e corri.

Corri o mais rápido que pude. Mentira. Essa não sou eu. Toquei a campainha e fiquei. Resisti ao impulso de ir embora. Os pés pesando toneladas. Os olhos ardendo. As unhas roídas. O estômago revirando e aquela dor de cabeça-enjôo, tão conhecidos meus. Concentraria na respiração, se houvesse. Mas, o ar estava suspenso. A vida, também. Já o coração batia forte e o corpo todo palpitava, num ritmo acelerado. Podia parar, pensei. Podia sumir, eu. Se não fosse essa estátua, estática, de mim mesma. Um arremedo de medo, de um quase pavor. Mas, não me movi, não mexi um dedo sequer. Esperei. Espero ainda. Estou lá e lá é longe que só. Não me alcanço, mas me vejo por dentro e gosto dessa paisagem.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Esquece a agenda, o dia, a hora.

Esquece as promessas e os compromissos. Esquece a pressa. Morre um pouco aqui comigo. Deixa esse sentimento tomar conta do seu corpo, da sua alma e do seu coração. Devagarinho. Feito onda, que se agiganta, pra se perder ali na areia. Se você percebe isso, se você entende isso, se você deseja isso, vai, se deixa levar. E eu te levo. Juro, não te perco, não. Seguro forte a tua mão, mesmo quando não der pé. Sei nadar e te ensino. Sei boiar e te ensino. Se você quiser. Por enquanto, te olho de longe e espero. O problema é que não sei esperar. Mas, também não quero ir embora. E tudo isso é novo e é doido e é um cabo de guerra comigo mesma. Ganho e perco o tempo todo. Desconfio que você ganhe e perca também. Enquanto isso, as pessoas me falam pra ter calma. Pra esperar amanhã, depois, o dia seguinte. Mas, você sabe - e talvez, só você saiba - que pra mim estar viva é uma loucura imensa e pode acabar já. Puft. Já era. E eu quero mais e acho que nunca vai ser o bastante. E deve ser por isso que não durmo à noite, de tanta vontade que o dia comece, que o sol nasça e que a roda gire. Tudo igual e tudo diferente ao mesmo tempo. Não é infinitamente mágico? Eu acho. E queria te contar. Contar, não. Queria era te mostrar o que está por trás dos meus olhos e com meu desequilíbrio te sustentar no ar.



sábado, 21 de maio de 2016

Das lembranças.

Ela atravessava do muro da casa pro muro da delegacia e daí pra rua. Sem medo. Eu descia a escada de pedra e ia caminhando pela areia branca. Luz só dos postes e da lua. Barulho só das ondas. Naquele vai e vem que a gente, de tanto conhecer, adivinhava. Os mais velhos nas espreguiçadeiras de mil anos. A porta-janela vermelha aberta até de madrugada, quando a cruviana acabava com a coragem de qualquer um. A gente dormia na sala, num amontoado bom danado. Eu, que nunca gostei da noite, me sentia aninhada e protegida. Mas, queria mesmo era que o sol da manhã atravessasse as frestas de madeira, avisando que era hora de mar. Transparente, quente, salgado. Podia morar ali. Talvez, more. Até hoje. A gente pensa que vai embora, mas sempre fica.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Hoje, acordei com vontade de tomar outro café na tua casa.

Dessa vez, contigo. Pra falar da bagunça que a minha vida tá nesse momento. Uma bagunça que eu mesma arrumei pra mim. Não é ruim, moça. Pode ser qualquer coisa, menos isso. É sofrido, ok. E tá difícil. Mas, ruim não é. Embora aconteça de chorar e ter aquela vontade de ficar quietinha, na caixa, que tu conhece. Tá rolando um rebuliço danado aqui dentro, tudo mudando de lugar e a gente não gosta de mudança tanto quanto diz gostar. Porque a gente não sabe onde vai parar e esse não saber é muito, muito assustador. Mas também é a aventura da vida, que eu te falava. Isso que tira o chão e dá graça aos dias. Uma graça doida, vá lá. Mas, vê só, sem isso é tudo igual o tempo todo e tudo igual o tempo todo, a gente não quer. A gente nunca quis, não é verdade? A gente quis o maior, o gigante, o absurdo, o que faz o coração acelerar valendo. Só que hoje - e em vários outros dias também - queria poder te contar tudo isso ao vivo ou por telefone ou de qualquer jeito que desse pra ouvir tua voz grave do outro lado. Fazendo os problemas parecerem menores e divertidos até. Porque é isso, né, não? Aprendizado e alegria por poder passar por isso, por poder passar por qualquer coisa. Tu, que era (mas, vai ser sempre) ariana e trator feito eu. Mas, que escrevia mais bonito e sabia me fazer achar graça de mim mesma, por achar graça de si mesma também. Te amo tanto e isso não se acaba é nunca, Misson. Nunca. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Eu sinto muito, tudo.

Eu penso muito, em tudo. Eu canso. Mas, eu não sei parar. Eu não sei parar, nem esperar. Eu tento. Eu finjo. Eu quero agradar. Ando mais devagar e escondo essa vontade de dançar. Inspiro, expiro, mas a verdade é que não sei respirar. Vivo assim. Sobrevivo assim. Com essa ânsia de ar. Aí, suspiro. Suspiro infinito, pra conseguir aguentar. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O menino de Peixes.

Com esse mar no coração. De raiva e de riso, de um jeito que eu não sei medir, nem sentir. Ele que me fala, me ouve, me pergunta, não me entende, mas tenta. Ele que tem o melhor abraço e é porto seguro, pra quem ancora. Eu navego. Eu não paro. Eu teimo, eu calo, eu arranho paredes e me machuco. Ele bate, ele grita, ele expulsa a angustia num desespero que assusta. Eu olho. Eu chego perto, eu tento tocar, eu tenho medo e eu amo. Profundamente. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Essa saudade mora bem no coração da gente.

Nasce miudinha. Mas se alimenta do tempo, da distância e da ausência. Aí, ela cresce. Cresce e cria pernas pra passear pelos dias. E vai deixando um rastro de insegurança, medo e tristeza. Essa saudade vai roendo a gente de dentro pra fora. E dói. Uma dor que entristece, desmantela, desespera. Essa saudade é danada. E se a gente não toma cuidado, fica um pouco cego, um pouco doido, achando que é um negócio sem jeito, nem remédio. E esquece que com o abraço certo, ela fica miudinha de novo, se esconde e escapa, afrouxando a mão que, agora, lhe aperta a garganta. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Arrebentação.

Prende a respiração e mergulha. Estica a ponta dos pés pra ver se toca o chão, mas não. Quanto mais falta? Quanto mar falta? Emerge. Tudo é verde e azul. Tudo é horizonte e não há terra à vista. Nada, bóia, mergulha, mergulha, mergulha, mas não toca a areia, não sente o seu deslizar entre os dedos e isso lhe desespera. Respira. Conta. Faz de conta. Se deixa levar pela maré. Tudo que sente é o vai e vem das ondas. Na boca, sal. Nos olhos, sol. No desequilíbrio, se sente à deriva. Virou sereia e sonha com um porto seguro.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Vem.

Que essa casa, esse quarto, essa cama é um poço sem fundo e eu me afogo muito. Vem, fecha as torneiras e abre as janelas. Deixa a vida entrar. Os carros, as folhas, os pássaros. Esse vento quente e o teu cheiro de mato. Vem, traz um pouco de chuva, um pouco de sombra, um pouco de colo. Vem e me dá um descanso desse peso do mundo. Vem e me ensina a respirar.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Jogo os dados.

Avanço três casas, recuo duas. É um jogo, uma dança. Escolho os meus passos. Paro, penso. Observo você. Observo e espero. Espero o seu tempo. O tempo que for. Não há pressa, não há urgência. Enquanto isso, há vida. E essa sim, corre doida.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Ele me olhou devagar.


E devagar viu o meu corpo, a minha alma, o meu amor e a minha angústia.
Viu o meu desejo e o meu desespero.
O meu choro infinito e o meu riso incontido.
Viu a minha fúria
Mordendo os lábios, roendo as unhas. 
Viu o meu cansaço do mundo.
Viu o meu encanto com o mundo.
Coisa que só vê, quem olha devagar.
Bem devagarinho.   

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Eu não sei esperar.

Amanhã, é outro dia. E amanhã, talvez, nem exista. Eu, amanhã, talvez, nem exista. Tenho pressa, tenho essa urgência que me deixa com dor de cabeça e me faz arrancar a unha do pé com a porta do elevador. O elevador que está sempre no nove e que demora uma vida inteira pra chegar no terceiro andar. Eu ando pra lá e pra cá no corredor. Eu ando em círculos. Eu paro. Mas, não tenho calma. Calma eu nem sei o que é. Aí, você me diz "inspira, expira, presta atenção na respiração, que já vai melhorar". Mas, não melhora. Passo é mal de tanto oxigênio e meu coração acelera. Eu acelero e acho graça desse meu desespero, desmantelo. Preciso vencer esse hoje, mas ando tão desarmada.


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Prestar atenção no que é, no que está.

No abafado que faz. Na água que esquentou. Nessas poucas linhas. Verdana, número 14. Entrelinhas simples. Entrelinhas sempre simples. Prestar atenção na ponta do pé encostada na parede. No teclado na ponta dos dedos. No gosto de chocolate que ficou na boca. Na voz da moça. No telefone que toca. Prestar  atenção ao que está ao redor, perto, ao alcance das mãos.  O caderno verde, o lápis rosa, a bolsa azul. O cheiro conhecido da rotina. Nesse lugar comum, aquieto o pensamento. Prestar atenção, me ancora no agora. Agora, presta atenção.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Vi uma foto sua, menino, num dos quintais de Fortaleza.

E senti meu coração se encher de amor. Porque ele vive comigo. Ele, que é você, menino. Ele, que você, esse homem, leva na alma. Ele que faz palhaçadas pra me ver sorrir. Ele que faz da nossa casa, circo de lona colorida. Ele que inventa músicas, línguas, teorias pra desinventar as minhas certezas. Ele, que você leva no olhar pra vida, pro mundo, pra mim. Esse menino também levo comigo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Queria te contar novos segredos.

Queria falar contigo sem medo, sem freio, sem culpa. Queria o teu não-julgamento. Queria ouvir o teu riso do meu atrapalho. Queria rir contigo do meu atrapalho. Faríamos as piores piadas e isso seria melhor que qualquer conselho ou sermão. Queria ouvir as tuas palavras e sentir calma. Queria saber do meu lugar no teu coração, minha casa nesse mundo. Ao invés disso, fico em suspenso. Olhando pro abismo. Sob os meus pés, o vazio. Hoje, não há nada mais presente que a tua ausência.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Gostar não tem hora marcada

Acerto ou conveniência. Não tem hoje sim, amanhã não. Gostar não tem medida, não tem boas maneiras. Gostar não tem educação. Gostar não tem estratégia, não tem fórmula, não tem redenção. É um abismo e a gente salta sem esperar sim ou não. Porque gostar não depende de resposta, nem de explicação. Gostar é o fim e é o meio. Gostar é um desmantelo. É um tipo doido de perdição. Gostar não tem saída, nem tem razão.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Presta atenção,

ninguém sabe o que está fazendo o tempo todo. Ninguém é dono da razão. Tá todo mundo meio doido, tá todo mundo meio torto. Essa certeza absoluta é só fachada, é só conversa. As pessoas também estão quebradas, também estão sangrando. Não é só você. Nem sou só eu. Só há quem finja melhor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Você vestido de bruxa.

Roxo, preto e óculos. Por trás dos óculos, cílios. Os cílios mais bonitos. E a boca. A boca. Adivinho o gosto de cerveja e cigarro. O gosto de cerveja e cigarro de outros Carnavais.  Já foram tantos Carnavais. Mas, esse não. Peraí, esse não! Decidi numa mistura de teimosia, preguiça e cansaço. Mas, você vestido de bruxa me puxa e me fala tão de perto. Tão de perto. E ali perto, a sua casa. Ali, logo ali.  A sua voz, rouca. Cerveja e cigarro. O gosto, o cheiro e tantos Carnavais. Passa um ônibus, o meu ônibus. Mais, dois ou três. Você sobe comigo, eu desço. Você diz que sim, desobedeço. Você me puxa, de bruxa. Os óculos, os cílios, a boca. Feitiço. Eu fujo. Por um triz. Essa foi por um triz.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Vem chuva.

A minha vontade é de ir ver o mar. Na rua vazia, ele fala alto. Alto e apressado, como se fosse urgente. E não é. A angústia aperta o peito, mas o amor me sopra redemoinhos. Tudo é mar.

sábado, 21 de novembro de 2015

Em mim, habita um animal feroz.

Que é todo pele, unhas e dentes. Um aguaceiro, uma torrente, um vendaval. Um cavalo doido, um Carnaval. Um animal feito de vontades imperativas. Que exige, que demanda, que tem sede e nunca cede. Um animal veloz que me distrai dos meus dias, dos meus planos, dos meus medos. Um animal desenfreado, que atropela a minha vida e me revira a alma, sem nem olhar para trás. Porque não conhece a culpa, mas também não conhece a calma. É desmantelo, desvario, desassossego. Esse animal que me arranha a carne e que liberta o que o tempo, as regras, os prazos, as contas e as convenções sufocam em meu coração.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um colar de contas azul...

Um colar de contas azul de Salvador e um café. Um café, que é só um motivo. E tudo que a gente precisa é de um motivo que possa nomear. Porque motivos que não cabem em palavras,  também não cabem no peito. No peito onde todo o ar, foi substituído por alguma outra substância muito mágica e muito abstrata e muito, muito, muito volátil.  É isso que eu respiro no café, azul, enquanto faço de conta. 

Esses dias...

... Eu aceito o seu cansaço, as suas olheiras, o seu ranger de dentes no sono inquieto. Eu aceito o seu silêncio imenso e o seu desacerto no violão. Eu aceito o seu desassossego. Eu aceito quando me esquece por muitos minutos seguidos e depois aparece na porta do quarto pra ver se tá tudo bem, tá tudo bem. Eu aceito esse seu aperto no peito, essa agonia de quem precisa de calma e não tem. Eu aceito as suas pequenas fúrias e o seu desejo de fuga. Eu aceito. E você aceita o meu choro comprido. A minha falta de fome, a minha falta de sono. O meu aperreio, as minhas dúvidas, as minhas dúvidas, as minhas dúvidas. Aceita essa minha vontade de não sei o quê. Aceita a minha mania de falar sem parar e aceita quando me calo para nunca mais. Aceita as minhas inconstâncias, as minhas incertezas, as minhas intempéries. Esses dias, você aceita