segunda-feira, 23 de abril de 2012

Posso chamar esse hiato de distância.

Ou de silêncio. Tudo que afasta, tudo que separa. Essa sombra crescendo entre a gente. Atravesso o rio, insisto, nado contra à correnteza. Arrebento a alma. Caminho sobre brasas e em meus olhos, lágrimas. Toda dor é imensa, é insana. Cega como a fé, essa faca afiada.

domingo, 22 de abril de 2012

Estar em casa, pertencer à.

Esse chão e esse cheiro reconheço como meus. Essas cores salpicadas nas paredes são suas. Durmo e sonho amarelo. Os passarinhos acordam cedo com a gente. Chão frio e espirro. Café, pão e manteiga. Conversa solta, leve. Do riso à gargalhada, um suspiro. Novamente, o mar quebra nas pedras. Dessa vez, sem sustos. O tempo não passa e passa depressa demais. Não preciso te pedir pra ficar, porque sei que você volta. Eu espero e recebo. A isso chamo de entrega: de todas as escolhas possíveis, você.

sábado, 14 de abril de 2012

Teu amor, que é meu.

Teu amor é chão. É pouso, morada. Teu amor, minha pátria. Território de nós dois. Teu amor é alento. É um tipo de benção. Teu amor, mesmo mudo. Teu amor, minha casa. Teu amor que me salva. Do medo, do mundo. Teu amor que alivia, a alma. Teu amor, gargallhada. Teu amor, meu sossego. Essa cama em que me deito. Teu amor, meu espelho. Teu amor, olhos negros. Teu amor, sereno, moreno.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Que palavra é você?

Das mais bonitas às mais doloridas, não encontro a que lhe caiba. Preciso de uma palavra que lhe descreva, de uma palavra que lhe pertença. Preciso de uma palavra insone, de uma palavra que silencie. Preciso de uma palavra que seja fome, mas que também seja afeto. Preciso de uma palavra que morda, mas também que sopre. Preciso de uma palavra que não se deixe levar por meus pronomes possessivos mas que, ainda assim, seja minha.

Dona Francisca, Iracema.

Pra mim, ela era a índia Iracema das Fortalezas. Velhinha já, porque essa história foi escrita faz é tempo. E mesmo os anos, 93, não lhe tiraram a beleza. Se podia adivinhar. No corpo, nos cabelos, no olhar. Olhar de criança, que ria triste. Mas, ria. E fazia pose pra tirar foto e pedia coca-cola mesmo sem poder e não tinha medo de avião e contava histórias de antigamente e cantava de saudade. A saudade hoje é dela e eu não sei cantar tão bonito. Mas aos pés de um coqueiro no Ceará, que ninguém sabe direito onde é que fica, se ouve um lamento de despedida. Ela atravessa o mar para chegar a esse rio que é dela. É lá que mora o estrangeiro, aquele que lhe espera, aquele que sempre lhe esperou.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Hoje, eu queria ser a menina no celular.

A menina no celular com Camila. Calça e blusa pretas. Bolsa descombinando e um cabelo tão bonito que merecia uma foto. Eu queria ser a menina no celular falando sobre a viagem, o salão, o beijo, a festa. Eu queria ser a menina com toda a sua despreocupação. Rindo em silêncio e balançando os ombros. Eu queria ser a menina no celular com a sua pele morena, os seus olhos miudos e as suas mãos de criança. E o cabelo bonito, tão bonito que merecia uma foto. Tchau, Camila, um beijo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eu olho pra você devagar.

Divago, enquanto você dança. Enquanto você dança, o tempo não passa. E é sempre noite. E é sempre música. Eu finjo que não ouço, mas o meu coração tiquetaqueia no mesmo ritmo. Fecho os olhos e sorrio imenso. Você nem desconfia, confia em mim. Mas, eu não presto. Peço desculpas. Sem sentir culpa alguma.

domingo, 18 de março de 2012

Domingo.

Anoiteceu, mas o calor do sol permanece. Na pele, no ar e nas paredes dessa casa. O cansaço aquieta o corpo, mas o coração não. Nem a mente, essa aranha que trama e tece. Fios invisíveis presos na garganda e nem toda água do mundo. O que salva é esse cheiro de maresia. O que salva é enterrar os pés na areia e ser árvore.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Esquece o medo, engole o choro.

Disso não se fala. Se conseguir, nem pensa. Não consigo e sofro. Mas, me distraio com a correria do dia, a graça das pessoas, o caminho errado e a pressa em chegar. Ouço meu nome, sorrio como se tudo bem, sempre sorrio como se tudo bem. O velho olha pra mim sem parar, a moça com o namorado faz manha. Também queria fazer manha, mas ando muito cansada. O Por Enquanto me salva. É tudo que tenho, tudo que todo mundo tem, mas penso que é só comigo. O machado sobre a cabeça. O tempo, o tempo. Alivia, mas também machuca. Olha pra mim, eu olho de volta, meus olhos ardem, mas não me importo, nada mais importa. Agora.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

De todos os dias ou quase.

Você está deitado de costas pra mim. Olho pro seu cabelo preto, espalhado no travesseiro e acho que é a coisa mais bonita desse mundo. Queria tirar uma foto, fazer um desenho, escrever um poema falando da sua pele morena. Você se vira e me assusta. Sorri com os olhos apertados, olhos de rio e tempestade. Depois de tanto tempo, o que vai lá dentro continua sendo, para mim, um mistério. Enquanto isso, brinco na superfície me fingindo distraída. Mas, entenda: não tenho medo de me afogar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A La Ursa quer dinheiro, que não der é pirangueiro.

Era uma praia de Porto de Galinhas sem turistas. Pelo chão de terra batida, lá vinha ela: a La Ursa. Gigantesca, mal encarada, monstro com olhos de gente. As pessoas batiam palmas e cantavam ao seu redor "a La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro". Entravam nas casas, rodopiavam, dançavam, corriam atrás de um mal afortunado. Os adultos achavam graça. As crianças choravam. Eu ficava no terraço corajosa. O meu olhar atento seguia o bicho e ensaiava um sorriso pra disfarçar o pavor. Rezava pra que acabasse logo, pra que ela fosse embora, pra que ficasse longe de mim. E assim começava o meu Carnaval, sempre esse cavalo doido.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

6 dias.

Ela disse que queria voltar no tempo e ver como era antigamente. Os trilhos do bonde e as pedras do calçamento, continuam lá. No tapume que esconde o velho armazém, imagens de uma cidade futura, inimaginável. Do outro lado, o antigo casario, imutável. O que se ouve é uma mistura de frevo e maracatu. O resultado é a desarmonia. Plumas, paetês e as flores coloridas da chita. Tudo me comove e me convence: é Carnaval e a minha cabeça dói terrivelmente. O que me salva é ver o menino bonito dançando para os orixás. Os tambores do afoxé, anunciam: a guerra está para começar, escolham as suas armas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Café, pão doce e a minha avó.

E o perfume que o vento trouxe, me fez lembrar das tardes de antigamente. Café e pão doce. A minha avó. E alguém que tinha vindo conversar com ela - sempre vinha alguém conversar com ela - mas, já ia embora porque tava escurecendo. A hora do lusco-fusco. Quando o coração aperta e o que se sente é nostalgia. Rosa, roxo e azul, azul tão escuro que parece preto. A minha mãe demorava a chegar. O meu pai demorava a chegar. Mas, tinha a minha avó, amor, café e pão doce. Tinha a rede na varanda. Onde eu deitava de bruços e me distraia olhando as formigas. Depois, me distraia olhando as estrelas. Até lembrar do possível disco-voador. Tinha medo de disco-voador. Tinha medo de um monte de coisas. A noite me doía. Sempre preferi as manhãs.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

É noite.

E o seu silêncio toma conta da casa, que é sua. Ouço a televisão, o violão, o jogo chato. Sei que você está. Mesmo em silêncio, porque o seu silêncio é imenso. Uma sombra que chega até o quarto de onde escapo para o mundo. Até que você se aproxima, arisco feito um gato. Eu caço o seu sorriso, como se dele dependesse o meu. Fácil.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ainda não vi essa fotografia.

Essa em que você aparece de vestido branco e cabelo solto. Essa de quando o seu cabelo ainda era comprido, ainda era castanho, ainda era cacheado. Quantos anos você tinha? 13, 14? Você com pés descalços na areia. Os pés grandes demais pro resto do corpo. “Como é franzina essa menina”, lembra? Uma promessa de mulher. O vestido branco dançava ao seu redor e você sorria na fotografia. Essa que eu ainda não vi.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O teu nome.

Ranger de dentes em noite escura. O barulho do mar quebrando. Quebranto. Reza pra Nossa Senhora, minha filha. Um terço inteiro. Enquanto esse nó no peito, desata. Falta o ar, mas deve ser o calor. Faz muito calor, mesmo quando chove. E chove. Chuva de janeiro. Chuva que vem forte e vai embora, feito esse pensamento. Intrometido.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O meu bom dia abusado.

O chão de madeira sob o sol, sobre a cidade. O chão de madeira esquenta. Da luz que entra pela janela, poeira. Ouço o barulho na cozinha. É você. O barulho na cozinha, os recados na geladeira, o cheiro de café e pão torrado. O piso alaranjado é feio. As cerâmicas de duas cores, desequilibram. Mas você, de tanto sol, amorenou. Eu reparo. Paro e acho bonito. Esqueço de fechar a torneira da pia, enquanto lavo os pratos e ouço a sua voz de sono reclamar: “olha a água do mundo”. O meu bom dia abusado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Eu ouço e danço.

Primeiro.
Eu só conseguia olhar o que acontecia lá fora, em cima de um banquinho ou no colo de alguém.
As folhas do coqueiro alcançavam a varanda, eu não.
Mas, sabia que bastava atravessar a rua para ver o mar.
Lembro de ver a minha mãe saindo pra trabalhar e de sentir o coração doer de saudade pela primeira vez na vida.
Eu e a minha avó, duas choronas.
Às vezes, da varanda do apartamento ao lado, aparecia Tio Dudu ou Tia Anália e eu tinha que esconder depressa a chupeta embaixo da almofada do sofá.
O som das folhas do coqueiro.
Da vizinha chamando o meu nome.
Do choro do meu irmão.

Segundo.
Da janela do quarto, eu via o mundo que eram as papoulas lá embaixo e um horizonte de prédios.
Papoulas amarelas e vermelhas acordavam cedo, assim como eu.
À noite, eram as luzes das janelas que acendiam antes da lua.
Uma vez, vi um morto na rua da frente.
As pessoas chegavam e levantavam o lençol pra ver quem era.
A viúva chorava desesperada.
Um acontecimento.
Outro, era dia de Cosme e Damião.
O som do meu pai e minha mãe conversando até mais tarde.
Do arrastar dos chinelos da minha avó.
Do riso do meu irmão.

Terceiro.
A janela ocupava a parede inteira e eu via a Igreja da Soledade.
Muito carro, muita gente e a pessoa escolhida acenando pra mim.
Pela primeira vez, longe do mar, bem no centro da cidade.
Dali, avistava a praça, a farmácia, a padaria, a universidade.
Muito carro, muita gente e a pessoa escolhida sorrindo pra mim.
O chaveiro, o vendedor de tapetes, o lava-jato, o estacionamento.
Aos domingos, não tinha ninguém.
O som dos carros e das vozes.
Do sotaque estrangeiro
De música colombiana.

Quarto
Vejo prédio de tudo que é lado.
Um restaurante disfarçado de castelo.
Dá pra acompanhar a vida alheia e o ir e vir dos pombos que moram nas caixas de ar-condicionado.
Uma avenida que quase nunca para, mas a praia é logo ali outra vez.
A moça do milho, o manobrista do restaurante, os cachorros e os seus donos.
Os velhinhos caminhando, um bem-te-vi, aqui e ali.
Esses dias, as luzes de Natal e uma certa nostalgia.
O som de buzinas e freadas.
Das vozes da vizinhança.
Do meu par dedilhando o teclado do computador ou o violão.

Eu ouço e danço.
Eu sempre dancei, desde pequenininha.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Eram meninos correndo por cima dos telhados.

Meninos mocinhos e bandidos. Meninos com pernas e pipas ágeis. Saltavam de um telhado para outro, porque em seu reino o medo não existia e a lua sorria marota. Eram meninos. Eram só as pipas, presas, sem as suas pernas ágeis. Eram pipas presas nos fios de alta tensão. Era noite. A lua sorria marota e os olhos só enxergavam o que queriam ver.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Para Helena Sá Barreto, minha mãe.

Foi um susto olhar a foto dela e pensar que era eu.
Ela, que sempre foi a mais bonita.
Ela, que eu queria ser quando crescer.
De quem eu quebrei a coroa, o colar e ainda desfiei a meia-fina.
Eu que era um desastre, filha dela que era a perfeição.
E ainda diziam que a gente se parecia, quando eu me sentia uma estranha no ninho.
Querendo a sua aprovação, a sua benção, o seu carinho.
Sem saber que estavam lá, que sempre estiveram lá.
Mesmo sem as palavras e os gestos esperados.
Porque as palavras e os gestos esperados podem não acontecer.
Dela pra mim, de mim pra ela.
Ela que foi o meu primeiro amor.
A primeira pele, o primeiro cheiro, o primeiro encontro.
Ela, que é rainha. A minha. Pra quem eu construiria todos os castelos.
O que talvez, ela nem saiba.
Ah, ela sabe.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Não fala nada

Silencia dolorido e é sempre noite.
Os lençóis são coloridos, mas a luz está apagada.
Sorrio pra ninguém e sinto uma quase alegria.
Feito chama de vela, quando falta energia.
Pouco, mas suficiente.
Suficiente me basta.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

E tem esse lugar onde se é rainha.

No território desconhecido que é o Outro, é onde está fincada a nossa bandeira. A minha, tem um arco-íris, um sol, uma estrela e uma cruz vermelha. Tremula sob um calor de quase 40 graus. Mas, tem brisa. No Nordeste sempre tem brisa, Anarina. É nesse lugar imaginário que habito, como lembrança ou possibilidade. E em cada Outro, sou uma diferente de mim mesma. Embora tenha o mesmo cheiro, a mesma voz e as mesmas cores, cada um me traduz dentro de si a seu modo. Eu deixo. Eu gosto. Invento um porto pra cuidar do meu reino. Construo um forte de cinco pontas e levo os meus barcos para o mar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dos janeiros e fevereiros.

Veraneio era a casa com mais de cem anos em Porto de Galinhas. Chão de pedra. Cama de campanha para os mais velhos, colchão na sala para os mais novos. A espera do sol pelas frestas da porta pintada de vermelho. O barulho do mar, sempre o barulho do mar. O terraço de onde se avistava uma imensidão de areia branquinha. A água morna do primeiro mergulho. Só os olhos à vista. Nadar até os barcos, puxar a âncora e depois não saber como colocar no lugar. Passeio de jangada e medo de tubarão. Furar o pé no ouriço. Arranhar o joelho nas pedras. Esperar a moça da cocada, sentindo a tarde esfriar. Deitar no colo da avó. Sonhar ser sereia e acordar criança.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

E fez-se o encanto.

A menorá e as palavras escritas em hebraico. O kipá dos homens e a beleza das mulheres. Os abraços contidos. Os sentimentos, que iam do sorriso de reencontro ao desespero do pranto. A crença, a fé, os rituais milenares. Levados no sangue e na alma, de geração em geração. Mesmo na dor há beleza. E na despedida mais difícil, o renascimento. O encanto, guardo comigo. Sou olhos, ouvidos, braços e coração.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Foi hoje.

Atravesso a ponte e chego ao centro. O coração do Recife pulsa acelerado. O que me alcança é o som das buzinas, os passos apressados das gentes, as luzes de Natal. Acendem e me apagam. Faróis dos carros, sinais de trânsito. O cheiro de churrasquinho e o perfume enjoado da moça se misturam. Sinto cansaço. Sinto saudade. Mas, não há outro lugar onde deseje estar. Lembro da noite de chuva na Rua do Sol. Passo pela Guararapes e vejo as cores do Carnaval, mesmo sem a fantasia. Na praça, uma pregação. Lojas abertas até mais tarde. Estação Central lotada. No Leite, a gente só pediu "uma água, por favor". Há mais de 10 anos e parece que foi ontem. Foi hoje.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Feliz ano novo.

Eu não tava com vontade de ir. 2010 foi um ano complicado e me pareceu meio sem sentido, sem propósito. Nos dois anos anteriores, acordei animada, vesti azul e subi, feliz, o morro. Dessa vez, me faltou coragem. Mas, era uma espécie de compromisso. Nem sei direito com o quê ou com quem. Talvez, comigo. Talvez, com essa esperança na fé. Talvez. É complicado entender, quando a religião não é aprendida e sim apreendida. Mais pela intuição, que pela igreja. Você segue, sem saber exatamente pra onde, mas segue como se não houvesse outra direção. E vai. E eu fui. E tudo foi mais difícil, mais aperreado, mais demorado. Quase não chegava lá, quase perdia a paciência, quase passava mal só de olhar a multidão na escadaria. Mas, tem sempre essa força, que cada um nomeia como lhe convém e que faz seguir em frente. Ou, nesse caso, pra cima. 365 degraus. Segurando o corrimão vermelho por medo de cair. Olhando a água que descia veloz e pensando no que queria que ela lavasse e levasse embora. Um olhar vigilante logo atrás e o conforto das palavras "tá tudo bem". Parei no meio do caminho. Por causa da moça subindo de joelhos, por causa da senhora que mal podia andar, por causa do sol, do calor, do cansaço, do fôlego que falta. Lá no alto, pela primeira vez, meu olhar sabia exatamente o que procurar. E chorei. Por tudo. Por todos. Pelo que dói, pelo que assusta, pelo que paralisa. Um choro desses que vem lá do fundo da alma, onde nem o pensamento alcança. Pedi força e coragem. Agradeci, porque sempre há pelo que agradecer. Senti amor e alento, de um jeito que não dá pra explicar a quem não esteve lá, a quem não está aqui dentro. 2010 ficou pra trás. Que 2011 seja mais leve.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Novembro no Rio de Janeiro III

No café da manhã do hotel, só se falava espanhol. Vários sotaques diferentes dessa língua que, durante anos, habitou a minha casa e a minha alma. Acordei num país estrangeiro e fazia sol. A intenção era ir até o centro. Mas, intenção é só uma ideia. No caminho: Copacabana, Botafogo e Flamengo, que nem reparei da primeira vez e hoje achei tão bonito! Penso que deve ser muito melhor passear ali entre-árvores, que no sol inclemente da Avenida Atlântica... Ao invés do centro do Rio de Janeiro, fui conhecer o centro de Niterói. Na ida, travessia de balsa. Na volta, atravessamos a ponte gigantesca. E era tanto barco. E era tanto mar. Antes, foi bonito ver o Rio de Janeiro do Mac e descobrir que a praia ali na frente é a de Boa Viagem. Podia mudar de cidade, sem mudar de bairro. Na volta, Sambódromo, Cemitério do Caju, uma catedral igualzinha a de Fortaleza e uma comunidade com casinhas azuis de Iemanjá. Parada em Botafogo, pra ver o Pão de Açúcar exatamente como nos cartões postais, que é o que não falta nessa maravilha de cidade.

Rio de Janeiro em novembro (II)

Ipanema de manhã cedinho. Ruas de acesso à beira-mar já interditadas. Gente chegando de tudo que é canto, de tudo que é jeito pro domingo na praia. Finalmente, fez sol. Metrô até o Largo do Machado com seus velhinhos e flores. De lá, pro Cosme Velho, passando pelo bairro das Laranjeiras que satisfeito sorri. Sinto que meu coração se apaixonando pelo Rio de Janeiro de prédios antigos e morros atrás dos prédios. Taxistas dizem que é muito melhor ir com eles até o Cristo, mas é preciso subir naquele trenzinho vermelho cheio de turistas italianos que falam muito e falam alto. Só param na hora de disparar os flashes das suas supercâmeras para fotografar jacas. A cidade vai ficando lá embaixo e lá em cima o que se vê é um Cristo Redentor cercado de nuvens, abençoando a cidade coberta por um véu branco. É como se não houvesse nada além daquele lugar, daquele momento. E a turista italiana diz "que pecado!". Eu acho bonito. Mas, mais bonito é quando o céu se abre e descortina um Rio de Janeiro, maravilhoso. Almoço no Catete. Vontade de ver o Aterro do Flamengo, mas fica pra outra hora. É preciso chegar na Urca e pegar o bondinho pro Pão de Açúcar. Uma babilônia. Lá no alto, lá no mais alto possível, vejo a cidade em seu esplendor e penso que nunca vi coisa mais linda nessa vida. Parada na padaria. Sanduíche com suco de laranja e a costumeira displicência carioca. Na volta, passeio por Copacabana. Gente andando, correndo, passeando de bicicleta, de skate, de patins. Depois, pôr do sol em Ipanema. Azul, púrpura, cor de rosa em laranja. O céu pegou fogo.

sábado, 6 de novembro de 2010

Rio de Janeiro em novembro

Uma viagem de três horas que dura uma noite inteira. Um mar de nuvens, antes de avistar o mar da Baia de Guanabara. Olha a Ponte Rio-Niterói! E os barcos parecem de brinquedo. Cinco horas da manhã no meu relógio. Seis, na cidade onde tinha acabado de chegar. O aeroporto é menor do que eu pensava e as pessoas não são todas lindas como na televisão. Um café com leite e um misto quente, por favor. Ônibus que vai pra Alvorada e passeia pelo Centro. O Recife aqui e ali, nos prédios que parecem aqueles que ficaram na Avenida Guararapes. Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, Gávea, São Conrado e Barra. E é muito mar nesse Rio de Janeiro. Muito mar e muita pedra. Frio na barriga cada vez que olhava pra baixo e via o mar quebrando nas pedras. Mar, quebrando, pedras. Chovia. Choveu o dia inteiro. Hotel cheio de espelhos, banheira e cheiro de madeira. Avenida Francisco Otaviano, esquina com Nossa Senhora de Copacabana. Passeio pelo Arpoador. Uma cidade tomada por todos os sotaques. Carne assada e batatas coradas no almoço na varanda do restaurante onde não haviam cariocas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cinco Pontas.

Lá, o sol deixa o branco mais branco, tudo é claro e tudo reluz. Gosto de olhar para o chão de pedra e pensar que guarda muito passado. Quantos pés? Quantos passos? Levei ali alguns dos meus amores e travei guerras inteiras dentro de mim. Os canhões já não tem utilidade, mas a fé continua vencendo batalhas. Da última vez, ele segurou a minha mão e me levou por um túnel escuro que ia dar no mar. Fechei os olhos e segui, continuo seguindo.